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A direcção do PSD abdicou de forçar a votação do Programa de Estabilidade do Governo no Parlamento para evitar dar um pretexto para um sobressalto político na maioria de esquerda. A decisão é um dos exemplos da estratégia que a direcção do PSD quer seguir: deixar totalmente o ónus da governação para PS, BE, PCP e PEV. O líder do PSD, Passos Coelho, quer evitar que o partido entre no combate político do dia-a-dia, mesmo quando suspeita que pode haver algo de grave por trás de medidas anunciadas pelo primeiro-ministro. O método dá uma imagem de inércia daquele que é o maior partido da oposição, mas várias fontes sociais-democratas garantem ao PÚBLICO que essa é mesmo a estratégia do PSD.

O líder do PSD já o disse: não tem pressa de eleições legislativas. O Programa de Estabilidade podia ser um pretexto para provocar os partidos que apoiam o Governo PS, mas o PSD não o quis fazer. As divergências entre PS, BE, PCP e PEV sobre aspectos da governação ou da banca têm merecido o silêncio do PSD. “Não vamos alimentar problemas que haja entre eles”, disse ao PÚBLICO um dirigente social-democrata. Esse é um ponto da estratégia do partido, quase um mês depois do congresso e de duas reuniões da comissão permanente e de uma primeira comissão política nacional. O terreno do combate directo ao Governo – que é visto como tendo uma forte máquina de comunicação – não é favorável ao PSD, admite outra fonte.

É esta linha traçada por Passos Coelho que justifica um silêncio de três dias do partido depois de o primeiro-ministro revelar, numa entrevista ao DN/TSF, a intenção de criar uma instituição financeira para acolher o crédito mal parado dos bancos. O líder do partido optou por não reagir de imediato nesse fim-de-semana, apesar de sobrarem muitas dúvidas sobre o que está verdadeiramente por trás da ideia do chamado “banco mau”. Só três dias depois o deputado Manuel Rodrigues, ex-secretário de Estado do Orçamento, veio pedir explicações a António Costa e defender que o projecto não é necessário para o financiamento da economia, tese que Passos também sustentou.

Mesmo na bancada do PSD há quem não compreenda esta posição do partido e queira ver mais acção. Até porque o seu antigo parceiro de coligação, o CDS-PP, tem estado incansável no combate político. Pede audições a ministros, reage a polémicas e desdobra-se em declarações. Uma delas incidiu sobre o relatório da avaliação de Bruxelas sobre o pós-troika que alertava para vários riscos da política do Governo. Passos Coelho referiu-se ao relatório, na véspera de ser tornado público, mas o partido acabou por não reagir à sua divulgação e ficou em silêncio. “A notícia falava por si, não era preciso acrescentar mais nada”, justifica uma fonte oficial.

A agenda mediática do PSD está agora em boa parte concentrada no Banif e no tiro ao alvo ao ministro das Finanças, Mário Centeno. Nesse dossier, a direcção do PSD considera já ter pontos a favor por estar a conseguir reverter o rumo da história. Lançou a acusação de que Mário Centeno mentiu na comissão de inquérito, fazendo com que as atenções deixassem de estar focadas no alegado desleixo do anterior Governo sobre a situação do banco.

Na estratégia do PSD, Passos Coelho não deverá deixar o registo do ex-primeiro-ministro, apesar de haver algumas vozes internas que pedem que o partido traga para a agenda outros temas – até já trabalhados pelo partido – e que inspirem esperança aos eleitores. Pedem sobretudo que se deixe o discurso das finanças e do défice. Parece difícil essa metamorfose na mensagem tendo em conta que a direcção do PSD acredita que as grandes dificuldades que o Governo virá a ter serão o reflexo de uma política económica e financeira errada. É mais por aí do que lhe vir a faltar o apoio de um dos partidos à esquerda.

Sem eleições legislativas à vista, a direcção do PSD acredita que o próximo Orçamento do Estado será o grande teste ao Governo por ter de aplicar medidas mais duras para corrigir a trajectória do défice. Os sociais-democratas acreditam que quando o país for a eleições o PSD tem de ter preparada uma solução alternativa para encarar a previsível bipolarização. É nesse contexto que se enquadram os projectos legislativos alternativos que o PSD tem apresentado ao Programa Nacional de Reformas. São, ao todo, 222 medidas, como sublinhou o líder parlamentar, Luís Montenegro, a maior parte das quais retiradas do programa eleitoral da coligação Portugal à Frente. Mas, como diz a tese oficial, o PSD tem de ser coerente com as propostas que foram a votos. É que essa foi a solução que ganhou as legislativas de Outubro.

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