“Medidas de inclusão laboral adotadas são quase um insulto à inteligência de...

“Medidas de inclusão laboral adotadas são quase um insulto à inteligência de todos nós”

Entrevista com Adão Barbosa, presidente da Associação Portuguesa de Deficientes - Delegação de Paredes

332
1
COMPARTILHE

A Associação Portuguesa de Deficientes – Delegação de Paredes tem-se assumido como uma referência na região na promoção e defesa dos interesses individuais e coletivos das pessoas portadoras de deficiência. Nos últimos anos tem desenvolvido projectos e incrementado actividades junto da comunidade com o objectivo de alertar para as inúmeras dificuldades relacionadas com as barreiras arquitectónicas e outras.
No desporto, o basquetebol em cadeira de rodas é a modalidade mais emblemática da associação que tem uma equipa oficial a representar o clube no campeonato nacional. O presidente da instituição, Adão Barbosa, considera, também, que a recente criação do Balcão da Inclusão vai permitir uma coisa muito importante, que é rapidez na obtenção da informação que se procura.

Yes Notícias: Quantos anos tem a associação, qual a sua área de abrangência e como surgiu a ideia de avançar com a sua constituição?
Adão Barbosa: A APD Paredes foi fundada a 22 de dezembro de 1992 e, portanto, já tem 26 anos. A sua área de abrangência refere-se a todos os aspetos e dimensões associados à temática da inclusão das pessoas portadoras de deficiência, que foi, aliás, o grande motivo que levou à constituição desta associação. Face aos problemas sociais bastante complexos que afetam, de forma significativa, a vida destas pessoas, torna-se fundamental a existência de associações que, no espaço da comunidade, tenham uma postura de maior proximidade em relação a estes casos, a partir do qual possa ser capaz de dar propostas e contributos em prol da melhoria da qualidade de vida destes cidadãos.

YN: No que toca às acessibilidades, considera que existe um fosso entre as condições atuais e as que seriam as desejáveis na região do Vale do Sousa?
AB: Depende dos concelhos e dos tipos de deficiência. Temos que considerar, antes de mais, que o tema da inclusão é relativamente recente e, como consequência disso, o trabalho feito pelas instituições locais também não é muito. Nem a reflexão sobre o tema é aprofundada. A acessibilidade não se prende só com rampas para cadeiras de rodas, e adaptações de espaços. É também uma questão de mobilidade e coesão territorial. Por exemplo, já alguém pensou nos enormes problemas de mobilidade que os deficientes dos concelhos rurais da região sofrem, e da dificuldade de acesso que muitas vezes sentem aos serviços públicos? Já se pensou até que ponto certos défices de cobertura dos transportes públicos promovem a exclusão social de deficientes que residem em áreas rurais excluídas desta cobertura? Já alguém pensou no impacto da diminuição da oferta de transportes públicos ao fim-de-semana, na vida de deficientes que não têm outra forma de se deslocar autonomamente? O problema de tudo o que diz respeito à inclusão, é que este problema é de tal maneira complexo, que falar da adequação ou não das condições existentes, tem muito que se lhe diga…

YN: Considera que há ainda défice nas respostas sociais relativamente ao portador de deficiência?
AB: Quando fala em respostas sociais, fala em quê? Prestações sociais? O problema é que, se houver algum dia défice, é porque existe escassez de contribuições… Porque o problema é que o Estado parece limitar-se a atirar dinheiro para cima do problema, e as medidas de inclusão laboral adotadas são quase um insulto à inteligência de todos nós. Enquanto não mobilizarmos esforços para uma verdadeira inclusão laboral, assente em princípios de estabilidade e progresso profissionais, estaremos a criar uma quantidade enorme de eternos dependentes de prestações sociais do Estado. E muita da nossa luta consiste em dizer exatamente o contrário! Inclusão não é assistencialismo permanente, mas sim promoção de condições de vida, que garantam um futuro decente a estas pessoas. Senão, vamos ter mais do mesmo: pessoas com deficiência a viver de subsídios estatais, sem acesso ao mercado de trabalho, e dependentes por inteiro do cuidado de famílias e associações. Casar, ter filhos e adquirir património próprio passa a ser uma miragem distante para estas pessoas.

YN: Quantos cidadãos portadores de deficiência na região estão institucionalizados? Defende que há ainda muitos utentes institucionalizados que deveriam e poderiam ter uma participação mais ativa na comunidade?
AB: Não sei ao certo estes números de institucionalizados, mas quanto à sua participação cívica, defendo-a fortemente. Se forem estimulados, formados e incentivados a isso, os deficientes podem ser importantes mais-valias para a comunidade, em múltiplos níveis.

YN: Acha que houve uma evolução na forma como a comunidade olha, hoje, para os portadores de deficiência?
AB: Não. Ainda não nos levam a sério, nem às nossas reivindicações. As pessoas são sensíveis à temática da inclusão e apoiam-na, mas pouco mais do que isso. Ainda somos fortemente estereotipados e menorizados pela nossa condição, mesmo em situações em que já atingimos um nível socioeconómico mais elevado, o que não acontece muitas vezes, bem pelo contrário. Temos de nos fazer respeitar, defender ferozmente a nossa dignidade e direitos, e sermos levados a sério nesta causa social que nos é tão cara. E isso está longe de acontecer…

YN: Considera que houve avanços na integração no mercado de trabalho? Existem ofertas para os portadores de deficiência?
AB: A taxa de atividade laboral dos portadores de deficiência ronda os 8%, segundo dados divulgados na última edição do jornal da Associação Portuguesa de Deficientes, que combinou informação do Censo Demográfico de 2011 e do Gabinete de Estratégia e Planeamento (GEP) do Ministério do Trabalho e Solidariedade, relativa a 2015/16. O Observatório da Deficiência e dos Direitos Humanos refere, em 2017, que dois anos antes, a percentagem de trabalhadores com deficiência em empresas com 10 ou mais trabalhadores, é apenas de 1%. Estamos a falar de uma situação de emergência social! E que respostas dá o Estado? Uma percentagem de um a dois por cento de deficientes em médias e grandes empresas públicas e privadas? Medida para a qual podem abrir-se exceções? E que moral tem o mesmo Estado de impor quotas a quem quer que seja, quando o próprio fraciona concursos públicos, de forma a contornar a obrigatoriedade de contratar pessoas com deficiência para os quadros da função pública? Retomando a pergunta, avanços? Só se for na hipocrisia de acenar com bandeirinhas de inclusão, e depois não a colocar minimamente em prática!

YN: Um dos projetos da Associação Portuguesa de Deficiência, núcleo de Paredes passa pela criação do provedor do munícipe em todos os concelhos da região. Qual o ponto da situação relativamente a esta questão? Foram dados passos significativos?
AB: Ainda vamos agendar reuniões com os autarcas da região, no sentido de proceder a essa medida. A criação das figuras do Provedor do Munícipe é fundamental na valorização política das pessoas com deficiência. Se as comunidades se habituarem a ver um conterrâneo com deficiência a ocupar um cargo de mediação política, vão habituar-se a olhar para os deficientes como potenciais líderes políticos, de vários quadrantes. O Cristiano Magalhães, que é sócio e dirigente da APD Paredes, é Provedor da Inclusão no Marco de Canaveses e, graças a isso, é detentor de um prestígio social que, talvez no futuro, o poderá colocar como uma personalidade política importante no seu concelho. Na nossa associação, temos felizmente outros exemplos, de associados nossos de Penafiel, Paços de Ferreira ou Lousada, que têm ambições políticas e perfil para assumir um cargo desses. E o quanto isso seria importante no surgimento e crescimento de líderes políticos portadores de deficiência, num futuro já bastante próximo!

YN: Outros dos projetos da associação passa pela constituição de um Centro de Atendimento, Acompanhamento e Reabilitação Social. O que é que se pretende com o mesmo?
AB: O projeto requer, sobretudo, obras de requalificação e adaptação da nossa sede social, no sentido de cumprir os requisitos obrigatórios para que tal projeto possa funcionar. O nosso centro passa pela disponibilização de um serviço de aconselhamento, apoio e informação a pessoas portadoras de deficiência, bem como a familiares, cuidadores e instituições, alusivos à temática da inclusão, mas também à gestão emocional e afetiva que lidar com situações deste tipo implicam. Com um aspeto característico, que é o facto de termos técnicos de atendimento portadores de deficiência, remunerados pela APD para prestar assistência técnica e apoio a outros deficientes, e não só. Neste momento, o dossier do projeto está a ser discutido e calendarizado com as entidades locais e, a seu tempo, teremos novidades concretas a propósito de um projeto há muito ambicionado.

YN: Mais recentemente, em Penafiel, foi criado o Balcão da Inclusão. Consideras que esta valência é uma mais-valia para os portadores de deficiência? É mais um reforço/contributo para a inserção/reabilitação do portador de deficiência?
AB: O Balcão da Inclusão em Penafiel vai permitir uma coisa muito importante, que é rapidez na obtenção da informação que se procura. Ao invés de a pessoa perder tempo em muitos serviços para ser informada sobre questões e problemas do seu interesse, tem num único serviço a resposta de que necessita, o que é uma mais-valia inquestionável. Falta é saber qual o impacto do Balcão da Inclusão na melhoria da qualidade de vida dos portadores de deficiência penafidelenses, em outros domínios importantes da sua vida, como a integração no mercado de trabalho. Só com o tempo iremos aferir isso. Mas a medida é positiva. Só que há muitos outros passos a dar!

YN: O basquetebol em cadeiras de rodas tem um papel importante na APD. Como é que surgiu a aposta nesta modalidade? Podemos afirmar que é a embaixadora e uma das mais relevantes da associação?
AB: O basquetebol em cadeira de rodas é a modalidade desportiva mais emblemática da associação. Além de termos uma equipa oficial a representar o clube no campeonato nacional, temos praticantes a fazer a sua iniciação à modalidade em Lousada, de modo a irem aprendendo e evoluindo, tendo em vista a sua integração futura na equipa principal. Em relação aos apoios, os mesmos são ajustados à disponibilidade de investimento das entidades públicas, e também de beneméritos que, com um esforço pessoal significativo, se empenham para dar as melhores condições possíveis aos nossos atletas, desde cadeiras de competição, bolas, equipamentos ou transportes. Para além disso, compete à APD organizar iniciativas de angariação de fundos, que contribuam como um complemento, uma ajuda adicional, face à despesa relevante que nós, enquanto coletividade, assumimos com esta equipa.

YN: Recentemente tem havido uma colaboração com a autarquia de Lousada para incrementar a modalidade no concelho. É expectável e existem condições para que o mesmo venha a ser desenvolvido noutros concelhos?
AB: Tal como o referido na questão anterior, já temos atletas a treinar em Lousada e a intenção é, para já, permitir um primeiro contacto dos portadores de deficiência com a modalidade. Competição, para já, só em Paredes, e todos os lousadenses que reunirem qualidades que justifiquem o “salto” para a competição, serão, consoante a sua vontade, integrados na competição desportiva federada. Tendo em conta a vertente lúdica e de contacto inicial que é colocada como prioridade para os treinos realizados em Lousada, a autarquia tem, até ao momento, disponibilizado as condições necessárias para esta fase de arranque. O desenvolvimento de um projeto autónomo relativamente a Paredes dependerá, por sua vez, da disponibilidade que algum clube de Lousada tenha em “abraçar” a modalidade e, por outro, das condições financeiras e logísticas que forem encontradas junto de autarquias e patrocinadores. Este raciocínio é válido para todos os outros concelhos. É muito bonito dizer que se apoia o desporto adaptado, mas nem sempre as condições que se reúnem são as mais adequadas. E passos em falso nunca daremos! Antes de partirmos para qualquer projeto, necessitamos de saber com o que podemos contar, e estabelecer parcerias sérias e fidedignas com as instituições.

YN: Para além do basquetebol, a associação integra no seu plano de atividades as modalidades de atletismo, andebol e ténis? Qual a expressividade e visibilidade que estas modalidades têm?
AB: Temos um associado nosso, um importante quadro da nossa instituição, que é um atleta cada vez mais conhecido no circuito nacional do ténis em cadeira de rodas, e em relação ao atletismo, marcamos presença regular em algumas importantes provas da modalidade, principalmente na zona norte do país, ainda que com objetivos mais recreativos do que competitivos.

1 COMENTÁRIO

  1. O deficiente em Portugal e um excluido. e quando digo isto digo quase tudo mas falta muito para dizer tudo. O deficiente e um impecilho e um ser que nao interassa estar vivo porque so da trabalho e nao da votos para os tachos.. E um ser humano que devia de recair en si m uito AMOR e beneficios para levar a VIDA o mais digna possivel. E um desprezado porque nao tem poder reivindicativo e nesta democracia que nao tem poder dessa ordem nao tem nada. Quase que e um ser extraterrestre porque em portugal nao existe mente para o compreender.. Um deficiente em Portugal e um holocauto so falta o forno crematorio. Pais pobre mas mais pobre de espirito e com bastante arrogancia de que e alguem grande quando nao passa de um deficiente MENTAL que nao sabe tratar os que mais precisam

DEIXE UMA RESPOSTA