O céu é o limite do andor

O céu é o limite do andor

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Os habitantes da freguesia de Torno preparam-se para sair à rua e cumprir uma tradição centenária que existe há 193 anos e que, por estes dias, reúne alguns milhares de curiosos e fiéis devotos da imagem da Senhora Aparecida, que, como diz a lenda, terá aparecido no monte da Senhora da Conceição, local onde foi entretanto erguido um Santuário.

É uma romaria envolta em muitas tradições, onde o principal enfoque é o seu cariz religioso e de romaria. É aqui que desfila o maior andor do mundo, que traz consigo uma imagem que terá pertencido ao Ermitão, figura central de uma lenda que vigora e corre gerações. A imponente estrutura do andor, este ano ao encargo do armador Senra, leva a que sejam necessários cerca de 80 homens a transportá-la por cerca de dois quilómetros, com escadas, descidas e percursos difíceis, o que envolve muita perícia.

José Augusto Ferreira é o pároco da paróquia de São Pedro Fins do Torno há catorze anos e o criador do projeto que envolve o Santuário, o Museu, a reestruturação da Capela e a ideia passa por criar novas infraestruturas. “Quando não tiver projetos, estou morto. Quando cá cheguei, este espaço era uma ermidinha, um espaço pequeno, fechado e o exterior não era nada disto, nem lhe consigo explicar o que era. Todo este espaço envolvente foi criado por mim, para dar mais dignidade ao local, fazendo do que era uma ermidinha, um grande Santuário Mariano”, explicou o padre, abordando, ainda, os ‘sonhos’ do futuro. “Sim temos mais projetos, mas custa-me sempre falar deles. Aliás, posso dizer-lhe que o Santuário, não tendo sido uma promessa, foi executado em tempo recorde, foram três meses de execução de uma obra que custou 250 mil euros, sem pedirmos um tostão a ninguém e conseguimos pagá-la. Foi uma coisa maluca, megalómana, para alguém que na altura tinha 28/29 anos. Se calhar hoje as coisas teriam de ser um bocadinho mais  ponderadas”, admitiu, revelando orgulho no olhar.  “Um dos meus grandes sonhos para este Santuário é a criação de uma igreja mãe que possa abrigar os fiéis ao longo do ano. Conseguimos ter cerca de 3 mil pessoas a assistir à Eucaristia e não temos nada que as proteja a não ser o céu”.

Mas o principal destaque terá de ser dado ao andor, o qual o padre José Augusto pretende ver exposto durante todo o ano. Como tal, “faz sentido que esse sonho comece com uma torre de vidro criada para o andor, que tem esta visibilidade que todos nós conhecemos, sendo o maior do mundo e que todos anos temos de desmontar e guardar. Não há sítio onde o possamos ter em exibição durante o ano inteiro. O primeiro objetivo será essa torre do andor, que permitirá que fique visível  todo o ano. Aliás, o museu nasceu como uma pequena semente dessa ideia”, realçou, frisando que o seu “maior projeto para esta  comunidade paroquial é construir gente feliz, porque só gente feliz é que depois vai construir alguma coisa”.

Imagem versus andor

Quanto a explicações acerca da dimensão do andor em relação à pequenez da imagem da Senhora Aparecida, o padre José Augusto explicou que o seu tamanho é normal, tendo em conta que era o Ermitão que “transportava a imagem e rezava por aqueles que não tinham tempo para rezar, porque estavam a trabalhar e em troca dessa oração pedia sopa. Um homem que transporta uma imagem todos os dias da sua vida, tinha de ser uma imagem pequena. O facto de o andor ser grande é tão simples e quase lógico. A imagem era pequena e fazê-la maior seria descaracterizá-la, porque não seria aquela a ser transportada”, destacou o pároco, lembrando que “a grandiosidade daquilo que a Senhora Aparecida conseguia a quem a visitava obrigou as pessoas a dizer que quanto mais perto do céu estivesse melhor e, então, quanto maior for o andor melhor. Daí o desafio permanente da gente desta terra, que procura que o andor seja cada vez maior, para o ter mais próximo do céu”.

A dimensão do andor obriga a que cerca de 80 pessoas o carreguem às costas durante o percurso da procissão. “Há uma tradição que se mantém, que passa de famílias para famílias, de pais para filhos, hereditária, um legado, tal como um testamento. Mas temendo que isso se possa perder pela evolução dos tempos, criámos um andor mais pequeno, uma réplica do andor grande, que temos no museu e que serve como momento de transladação da imagem da ermida para o andor que está junto à capela. E é feita pelos meninos que todos os anos fizeram a sua profissão de fé, que sabem que o seu compromisso nesse ano é fazer a transladação da imagem. O intuito passa por tentar criar nessas crianças este orgulho de transportar a imagem, acreditando que daqui a 20 anos poderão ser eles a transportar o andor grande”, revelou com convicção, elucidando para os perigos inerentes ao transporte do andor. “É impressionante a forma como o andor se transporta, mas é perigoso. Tem de ser gente que sabe o que está a fazer, porque desce escadas, ladeiras e não há muito espaço entre os homens para poderem caminhar. Têm de ir todos ao mesmo ritmo, porque não têm todos a mesma altura e têm de se compensar no peso. Daí que 90% das pessoas que o transportam têm que ser sempre as mesmas, por uma questão de experiência.

Afinal qual é o andor maior?

A discussão sobre qual será o maior andor do mundo há muito que divide opiniões. De um lado, está o andor transmontano da Romaria de Nossa Senhora da Pena, do outro, o da Senhora Aparecida. José Augusto, pároco da freguesia, quando questionado sobre se o seu andor é, efetivamente, o maior do mundo, explicou que existe um documento que comprova a veracidade do mesmo. “Não é dito por mim. Se me perguntarem, posso dizer-lhe que é o melhor, o maior e o mais bonito. Segundo o ponto de vista do registo, sim”, revelou, explicando que, “como andor que se movimenta com um Santo em cima, não tenho dúvidas de que é, de facto, o maior do mundo. Há uma discussão muito grande com a Senhora da Pena. O da Senhora da Pena foi construído aqui. Foi feito por artistas da terra, o que muito me entristece porque não me parece muito agradável que alguém, tendo aquilo que é seu, possa partilhá-lo noutro sítio”.

Por isso, o pároco José Augusto não tem dúvidas de que o andor da Senhora da Pena não é o maior, por uma simples razão: “Foram feitos os dois aqui, sei quem fez um e quem fez o outro. Isto é quase como uma mãe que fala dos seus filhos em relação aos outros. O meu é muito mais inteligente que o teu. Ponto. Acho que a discussão não pode, nem deve passar por aí”, frisou, dizendo, por entre sorrisos, que “nós temos orgulho em ter um andor grande. Sabemos que é o maior do mundo, mas, se não fosse, era mais bonito porque é nosso na mesma”.

As características do andor

O Padre José Augusto explicou que as características do andor deste ano serão mantidas, mas com algumas nuances. “A matriz pela qual me tenho regido nos últimos anos é a do centenário. Quando a festa fez os cem anos desde o aparecimento de Nossa Senhora, fizeram uma coisa estrondosa. O cartaz teve seis bandas de música, cem pessoas a tocar bombo e teve fogo de artifício toda a noite. Olhando hoje para aquilo que são as nossas romarias e as nossas festas, leva-nos a pensar que, de facto, fazemos muito pouco comparativamente com aquilo que eles faziam há 93 anos. A nossa matriz tem sido essa, a procura de identidade naqueles que fizeram disto o que é hoje”, realçou.

Cortejo fúnebre

Os costumes e as tradições populares têm uma evolução própria, de acordo com as mutações verificadas na sociedade. É o caso do tradicional cortejo fúnebre, que acabou por ser extinto, pelo pesado simbolismo que carregava. “O mérito de isso ter terminado não foi meu, mas do meu antecessor, o Padre Araújo”, revelou, admitindo que passou por algumas dificuldades no início, “porque o senhor Padre Araújo tinha terminado a tradição e entretanto tinha-se ido embora”.

O padre José Augusto assume-se como um defensor de tudo o que é tradicional, mas considera que o transporte dos fiéis em caixões não está ligado à religião. “Sou defensor de tudo aquilo que é tradição, mas há coisas que não consigo entender. Uma tradição com 50 anos não é propriamente uma tradição. É uma coisa bonita ou menos bonita, mas não tradicional, e depois não é autêntica. Primeiro, não lhe poderíamos chamar procissão porque não tinha nenhum caráter sagrado e era mórbida. Não me consta que um caixão ou uma urna se revista de sagrado. Foi uma tradição importada dos franceses ainda por cima”, confessou, acrescentando que, na sua opinião, “entendemos como tradicional o que nasce das pessoas e aquilo não nasceu das pessoas”, referiu, temendo que “a situação pudesse transformar-se num negócio. Não estamos a falar de um desfile de carnaval, mas de uma coisa séria”, concluiu.

Prova de velocidade com alterações

“A corrida de motas vai ser modificada, mas o traçado será o mesmo. Houve a necessidade de profissionalizar esse trajeto, que foi analisado com toda a história. Foram analisados todos os pontos onde aconteceram acidentes com as motas, com o público. Foram criadas zonas de interdição ao público e zonas de público. Isso vai, de facto, causar algum mal-estar a quem vem visitar, mas é um mal necessário. Tivemos que retirar gente de pontos estratégicos onde não pode de facto ter público, para garantir a segurança deles mesmos.

Padre 1

O convite do Padre José Augusto

“O convite é fácil de fazer. Não adianta dizer o que isto é, porque não tenho capacidade nem palavras que o justifiquem. O melhor será dizer venham, vejam, visitem e depois divulguem se acharem que deve ser divulgado. Serão todos aqueles que nos visitam o maior cartão de visita desta festa.  Às vezes dizemos, se não tiver nada que fazer, venha e veja. O que eu digo é outra coisa: tenha muito que fazer, mas venha na mesma e veja, porque vale a pena e é fantástico.

Destaques do programa da romaria

Dia 11 “Teremos 193 bombos reportando ao centenário, que fazem o percurso desde a Igreja Matriz até à Ermida de Senhora Aparecida.”

Dia 12 “Haverá cantares ao desafio. Quando se fala em cantares ao desafio, imaginámos os dois cantores no palco que se vão insultando um ao outro e o público que se vai divertindo com isto. Também é, mas não é só isso. Começa de uma outra forma, aliás, considero-a extraordinária, reportando-se mais uma vez àquilo que foi a origem desta festa, ou seja, os cantadores, antes desse insulto, entre aspas, pagão, vêm primeiro fazer a sua oração cantando ao desafio à Senhora Aparecida, que é uma coisa fantástica e muito bonita”.

Dia 13 “Às vezes não temos noção, mas nesta terra a feira mais antiga do cavalo nasceu aqui, depois perdeu-se, retomou-se e voltou-se a perder. Agora vai-se retomando naquilo que é possível, mas há uma coisa que a caracteriza, que é a corrida dos cavalos. À noite, atuarão os ranchos folclóricos”.

Dia 14 “É um dia dedicado à Nossa Senhora. De manhã, com as bandas de música a acordar a população. Acho que é o melhor despertador que qualquer um de nós pode ter. Depois o Sr. Bispo preside à Eucaristia. Segue-se a bênção das mães, num momento bom e bonito, e a transladação da imagem para o andor grande. Às 18 horas, esse momento único: o levantar do andor, descer do andor e da procissão que se inicia. À noite, termina a festa, com as bandas de música e a famosa tradição do fogo de artifício. É uma aposta grande das pessoas desta terra.”

Dia 15 “Dia da Nossa Senhora da Assunção. Convido todos os motards e ciclistas a participarem na Eucaristia para a bênção dos presentes e dos veículos. Será uma coisa megalómana. Este ano, faremos uma coisa diferente, sairemos todos após o final da Eucaristia com S. Rafael, fazendo o percurso da prova de velocidade e pedindo a Deus e a S. Rafael que proteja todos os concorrentes e o público. Será exibido, ainda, nesse dia à noite, uma curta de Joaquim Horta. Ele veio cá correr e fazer uma curta sobre o motociclismo, mas ficou deslumbrado com o que viu porque isto parece Macau. As pessoas correm no meio da rua com milhares a assistir. A exibição do filme vai decorrer no auditório, com a presença de Joaquim Horta e depois, tanto quanto sei, o filme será exibido em Nova Iorque, na procura de um prémio, que espero lhe seja atribuído.”

Por Elisabete Leal

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