Portugueses parecem “condenados” à emigração

Portugueses parecem “condenados” à emigração

Evolução da emigração portuguesa

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Portugal sempre foi um “país de emigração”, os 30 milhões de compatriotas e descendentes que vão até uma terceira geração, a residir no estrangeiro, são uma imensidão de gente, gente das nossas famílias. Quem não tem os “ tios da Suíça”, “os primos da França” ou os “amigos da Inglaterra?”. A emigração continua a marcar o nosso imaginário coletivo e a nossa sociedade, uma realidade que também se vive muito intensamente no nosso concelho.

A emigração portuguesa passou por várias fases. Nos meados do século XIX até aos anos 30 do século XX, houve um fluxo migratório transoceânico, nomeadamente para o Brasil e os Estados Unidos.

Desde a II Guerra Mundial que a emigração portuguesa tem sido constante. Entre 1950 até 1974, mais de um milhão e meio de portugueses abandonaram o país. Um primeiro pico de grande intensidade desta tendência foi atingido no final da década de 1960.

A França foi o destino claramente dominante, numa época em que Portugal estava sob uma regime ditatorial, politicamente fechado e marcadamente rural, onde a transição para uma economia moderna não conseguia criar um número suficiente de novos empregos. A expansão económica da França implicou o recrutamento de mão de obra não qualificada para a indústria transformadora, a construção civil e o emprego doméstico. Com a Revolução em 1974, houve um curto interregno, no entanto, a emigração voltou a crescer de forma gradual.

 O fenómeno de emigração afetou com maior impacto as regiões do Minho, de Trás-os-Montes e da Beira Alta, cujos habitantes partiram em direção aos países mais industrializados da Europa como a França, a Alemanha, o Luxemburgo e a Suíça.

No início dos anos 80 do século XX, os destinos que se afirmaram resultaram da sequência de emigração para França. Esta migração pode ser classificada como um “programa de transição”, pois mostra como o destino francês permitiu derivações para outros países.

O Luxemburgo é a referência deste “programa de transição” pela visibilidade e pelo significado da população portuguesa no Grã-Ducado. Nos dias atuais, a comunidade portuguesa residente no Grão-Ducado é a maior comunidade de estrangeiros, constituindo 20% da população. A tendência de emigração para um país como o Luxemburgo, forte economicamente, tem aumentado. Em 1990, estavam emigrados 30.614 portugueses, passando para mais de o dobro em 2010 (85.716 portugueses emigrados).

O fenómeno da emigração em Portugal é o resultado, na maioria das vezes, das más condições de vida da população.

A estagnação do crescimento económico em Portugal que se seguiu à entrada no Euro, a consequente pressão depressiva sobre o investimento púbico e o aumento do desemprego traduziram-se num crescimento da emigração nas duas primeiras décadas do século XXI. O crescimento, que foi interrompido com a crise de 2008, regressou com uma maior intensidade a partir de 2010. Desde esse ano, com a natureza assimétrica da chamada crise das dívidas soberanas e os efeitos recessivos das políticas de austeridade, a emigração passou a crescer mais do que antes da crise, estabilizando apenas entre 2013 e 2014 na casa das 110 mil saídas ano.

Segundo o Observatório da Emigração, que analisou os valores do Eurostat, com base nos dados dos censos de 2000/01 e de 2010/2011, há no mundo 2,3 milhões de portugueses emigrados, isto é, de pessoas nascidas em Portugal a residir no estrangeiro há mais de um ano. O Banco Mundial, para 2010, apontava um número muito semelhante, indicava haver 2 229 620 emigrantes portugueses no mundo. As Nações Unidas mostrava um número inferior, de 1 884 244 emigrantes portugueses em 2010 e de 1 999 560 em 2013.

Em 1960 a percentagem de emigrantes portugueses a viver na Europa era de 16%, ou seja, 165 mil portugueses emigrados. Em 2010 a percentagem de emigrantes subiu para 67%, que corresponde a mais de uma milhão e meio de portugueses emigrados.

A concentração dos portugueses na Europa foi, sobretudo, na União Europeia e países do espaço económico europeu. Segundo os dados dos censos nacionais de 2011 acedidos através do Eurostat, residem nos países da UE (União Europeia) e EFTA (Associação Europeia de Comércio Livre) mais de 1.1 milhão de portugueses.

O país da União Europeia onde vivem mais emigrantes portugueses é a França (617 mil recenseados), seguindo-se de Espanha (99 mil), Reino Unido (92 mil), Alemanha (75 mil) e o Luxemburgo (61 mil). Em relação aos países da EFTA, o essencial da emigração portuguesa concentra-se na Suíça, com 169 mil nascidos em Portugal recenseados em 2001. Os seis países referidos representam 98% dos emigrantes portugueses residentes na EU e na EFTA.

O Reino Unido é hoje o país para onde emigram mais portugueses (30 mil em 2013 e 31 mil em 2014). Seguem-se, como principais destinos, a Suíça (20 mil em 2013), a França (18 mil em 2012) e a Alemanha (10 mil em 2014).

Nos dias atuais, começa a existir um novo tipo de emigração, sendo a população que procura emprego noutros países qualificada. As elevadas taxas de emigração para o Reino Unido permitem concluir que estamos perante uma emigração predominantemente jovem de recém-licenciados, recrutados por agências empregadoras, já com percurso de mobilidade profissional. Os jovens mostram ter fracas intenções de voltar a Portugal, mas apenas futuros estudos permitirão verificar se este é um cenário mais geral da nova emigração qualificada portuguesa.

Telma Moreira

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