Os trabalhos do Campo (I)

Os trabalhos do Campo (I)

COMPARTILHE
Altino Magalhães

Antigamente, a maior parte das pessoas, principalmente as que viviam nas aldeias e pequenas vilas do nosso País, nomeadamente as gentes do Vale do Sousa e, em particular e de forma muito peculiar, as gentes de Lousada, cultivavam os campos, de onde tiravam os produtos que iriam servir para a sua alimentação e dos seus familiares, bem como para alimentarem os animais e, ainda, retiravam da terra a matéria-prima para o vestuário que usavam durante todo o ano.

Uma parte das colheitas era enviada e vendida nas grandes vilas e cidades, principalmente nas feiras, transportadas em carros de bois. Depois dos animais bem jungidos, os bois eram orientados pela filha ou filhas do lavrador que, bem vestidas, seguravam a soga numa mão e noutra a vara de marmeleiro para guiarem os animais com pancadinhas de “amor”, uma ou outra vez com pancadas de “ódio”, quando estes eram mais bravos e teimosos. As moças aproveitavam também as idas às feiras, festas e romarias, para arranjarem pretendente.

Os campos “verdejavam” durante todo o ano com as mais diversas culturas, cada uma na sua época própria e que eram tratadas com o máximo cuidado e “carinho” por mãos calejadas de trabalho que, desde ainda antes do nascer do sol, até ao seu pôr, sem relógios mas guiados pelas Trindades (toque dos sinos das igrejas, de manhã, ao nascer do sol; ao meio dia; ao pôr-do-sol e à hora de deitar, nove vezes com um pequeno intervalo a meio de cada três badaladas – três vezes três), ou pelo apito estridente do comboio, puxado por máquinas a carvão, lá cultivavam os produtos de que necessitavam para seu sustento e para pagarem as rendas aos senhorios, que normalmente eram satisfeitas, anualmente, com a entrega de determinada quantidade de linho, milho, centeio, feijão, batatas e vinho.

Nas terras do Vale do Sousa e do Tâmega, muito ligadas às terras do Minho e, de alguma forma, também às do Douro, cultivava-se principalmente o milho e feijão, o vinho, o centeio e o linho. Nos campos mais férteis e húmidos lá se cultivavam as hortaliças, as cebolas e as batatas e plantavam-se as árvores de fruto, nomeadamente macieiras, pereiras, figueiras e pessegueiros. Nas cortes (currais), construídas nos fundos das casas, criavam-se os bois, as vacas, as cabras e as ovelhas, bem como o porco, que iria ser morto no tempo do frio e serviria, depois de salgado e fumado, para “governo” (alimento) durante quase um ano inteiro. Também, perto das habitações, nos galinheiros, os galos de crista vermelha, os patos e os perus cantavam logo pela manhãzinha, enquanto as galinhas cacarejavam para porem os ovos que iriam fazer parte das iguarias que iremos também abordar em futuras crónicas, dando uma atenção especial, também, à cultura do linho, dada a importância e valor que lhe era atribuído, até nos cantares de então:

“Deste linho é que eu fabrico

O meu enxoval inteiro

Pois o que tem mais valor

É linho, ouro e dinheiro!…”

(in MEMÓRIAS DA MINHA GENTE  – Os Trabalhos do Campo em Meinedo – Lousada de Ana Perdigão, 2013, pág. 27)

A revolução industrial levada a cabo nos finais do séc. XVIII, princípios do século XIX, veio trazer novas ferramentas e máquinas, que ajudaram de sobremaneira nos trabalhos do campo, pois até aí era tudo fabricado à mão, com ferramentas artesanais e pesadas. No entanto, muitas destas culturas estão, atualmente, em desuso pois já não são rentáveis e por isso achamos interessante abordá-las nestas colunas, explicando o mais pormenorizadamente possível as tarefas e os demais trabalhos dos campos que os nossos antepassados, arduamente, efetuavam. Mas, sempre com muita alegria, cantando e rindo. Pudera!… “a moça perto do rapaz suaviza sempre as canseiras”.

Altino Magalhães