Silvares, “cabeça do Concelho”

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    Silvares deve o seu nome à vasta flora local. Do latim “silvales”, local de arvoredo selvático, a freguesia teria características de bosque, anuladas pela intervenção humana. Outros topónimos locais, como Bouça, Carvalho, Moita e Monte, corroboram as origens desta terra. Apesar de Silvares nos remeter para uma época mais primitiva da história da freguesia, vários topónimos mostram o trabalho de edificação daquela que é atualmente a sede do concelho de Lousada: “Devesa” refere-se aos trabalhos de vedação medieval, já que significa “terra vedada”, e Esplendém representa “uma propriedade rústica medieval, sob a égide administrativa de um cavaleiro do tempo da Reconquista Cristã”. A designação da freguesia mostra-nos a sua antiguidade, anterior à nacionalidade, ponto de vista sustentado apela análise linguística do topónimo, cujo plural em “ares” se explica pela inexistência na altura de “eira” ou “osa”. Trata-se, portanto, de um registo linguístico arcaico, que atesta a antiguidade da freguesia, que, no séc. XII, se encontrava no julgado medieval de Lousada. As Inquirições dos séc. XIII e inícios do séc. XIV, de D. Afonso II, III e D. Dinis, mostram que a maior parte das terras estavam nas mãos da Igreja, que detinha 23,5 casais (71%). O rei era um proprietário modesto, com apenas 5 casais, e a nobreza detinha 14% das terras. Facto curioso é estas Inquirições mostrarem que sobre a igreja local eram exercidas prepotências por parte dos “mordomos dos ricos-homens da terra”, o que levou a população a pedir proteção a nomes sonantes da nossa história. Falo de D. Egas Moniz e, mais tarde, a filha e neta, D. Teresa, solução de pouca dura, já que os descendentes desta começaram eles próprios a cometer abusos. Estes factos cruzam-nos com a história de Egas Moniz e, em particular, da filha D. Urraca, que terá sido aia da filha do rei D. Sancho I, D. Mafalda, a quem doou muitos bens que possuía, incluindo os de Silvares. A rainha D. Mafalda, como era conhecida, foi canonizada como beata, tendo doado em vida muitos dos bens que recebera e os próprios a diversos mosteiros. Apesar de em 1515, aquando da atribuição de foral a Unhão, Silvares figurar entre as 21 freguesias doadas mencionadas no foral, o Numeramento de 1527 refere-a como integrando o concelho de Lousada. Em meados do séc. XVIII, a Memória Paroquial menciona a existência de 150 fogos em Silvares e 480 pessoas, sendo a freguesia descrita como “cabeça do Concelho, por nela estar situada a Casa do Auditório no lugar do Turrão, onde se faz audiência duas vezes por semana”. Também é mencionada a feira, com as datas que ainda mantém, 9 e 25. Património arquitetónico Tendo como santo patrono S. Miguel Arcanjo, Silvares possui a  igreja matriz de Lousada, embora esta se encontre afastada do centro urbano. Sujeita a obras de restauro que a alteraram profundamente, nos séculos XVI e XVII, a igreja tem raízes medievais. Na freguesia, podem ser admiradas várias capelas. A do Senhor dos Aflitos, do séc.XIX, inicialmente construída de madeira, com o sino pendurado numa árvore, é hoje um grandioso templo, situado bem no centro da Vila. No alto do monte do Calvário, a Capela Pública do Calvário, segundo os dados disponíveis, já no séc.XVIII era reconstruída, apesar de ter a data de 1869 num púlpito. É de cantaria, com dois degraus de acesso. Finalmente, as duas capelas da rua de Santo António, do séc. XVIII, eram edifícios particulares, onde, em 1857, “se faziam os sacrifícios da religião”, mas, infelizmente, já não existem. Existem ainda casas com capelas que merecem ser referidas: a Quinta de Vila Meã exibe uma bela capela; a Casa da Bouça possui uma grandiosa capela; também a capela de Santo Adrião é particular, dos proprietários da quinta com o mesmo nome.

    É importante ainda referir a existência do Pelourinho, monumento nacional, símbolo da autonomia, e as estátuas e bustos de D. António de Castro Meireles, Sousa Freira e Dr. Abílio Alves Moreira. Varões Ilustres Manuel Mota, falecido na primeira metade do séc. XX, combatente da Grande Guerra, é oriundo de Silvares. Depois desse período conturbado, desempenhou funções de relevo na Câmara, tendo-se distinguido como secretário, a quem todos se socorriam, por se tratar de um funcionário excecional e a todos dedicar grande amizade. Esteve preso no tempo da ditadura do Estado Novo. Foi o fundador do Jornal de Lousada. José Freire da Silva Neto esteve ligado a Silvares nas últimas décadas da sua vida, tendo ocupado a presidência da Câmara Municipal por duas vezes, nos finais do séc. XIX e início do séc. XX. Foi o último presidente do tempo da monarquia. A ele se devem muitos melhoramentos no concelho: nos caminhos públicos, fontanários, iluminação pública, entre outros.

    Fonte: Moura, Augusto Soares de (2009). Lousada Antiga. Edição do Autor

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