A história da Igreja de Nespereira, contada por quem a viveu

A história da Igreja de Nespereira, contada por quem a viveu

Memórias de um passado no presente dos lousadenses

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Na última edição, na rubrica Reviver Lousada, destacamos a freguesia de Nespereira, em particular a sua Igreja Paroquial. Procuramos recolher mais memórias do passado que nos permitissem traçar a história daquele que é um elemento importante da cultura local.
Estivemos com o atual pároco da freguesia, Manuel Luís Rocha de Sousa, de 43 anos,  natural de Peroselo, Penafiel, pároco de Nespereira desde novembro de 2008, e também das freguesias de Covas e Sousela. Foi ordenado no ano de 2001, tendo atualmente 16 anos de sacerdócio.

Rosário Martins experimentando o novo orgão

Sobre as mudanças nos últimos nove anos, o pároco explica que, em relação à igreja, pouco mudou: “Nestes nove anos, as mudanças foram mais na avenida da igreja, uma obra da Junta de Freguesia, e na casa paroquial, o grande trabalho que temos realizado. Foi remodelada e transformada para salão paroquial, para catequese, com um mini-auditório.  Tem sido esse o principal trabalho que temos procurado fazer desde que cheguei. Aqui na igreja não são necessárias grandes alterações, tirando pequenas reparações. Mas sei que em 2000 foi efetuado o restauro desta igreja e essas obras foram as últimas obras de vulto que foram feitas aqui”.
Para Manuel Luís Sousa, a igreja serve perfeitamente as necessidades da comunidade, tendo uma lotação que ultrapassa as 350 pessoas.

Novo órgão: a novidade deste ano
Este trabalho coincidiu com uma novidade, que será do agrado de todos os nespereirenses e, em particular, dos fiéis e das 15 pessoas que constituem o coro: a chegada do novo órgão para a igreja, depois dos vinte anos de vida do antigo. “A igreja organizou esforços, conseguindo angariar fundos para esta nova aquisição. Estamos a falar de um valor na ordem dos oito mil euros e vai ser inaugurado já nas festas deste fim de semana. É um órgão com possibilidade de gravar.  É evidente que é mais moderno”, esclarece o sacerdote.
Atualmente, passa  pela frente da igreja a via rápida. Do lado direito da igreja (vista de frente) está o cemitério, que tem “boa capacidade”, e do lado esquerdo encontra-se a casa mortuária, com duas salas, um espaço inaugurado pelo presidente da CM de Lousada da altura, Jorge Magalhães, no dia 2 de outubro de 2005.

Padre Fernando Carvalho

As obras no início no novo século
Natural de Santos, Brasil, e filho de pais portugueses, tem 90 anos, completando 91 no dia 8 de março. Foi nomeado pároco da freguesia de Nespereira a 17 de janeiro de 1989, acumulando com a freguesia de Caíde de Rei. Foi sacerdote na freguesia de Nespereira até ao mês de novembro de 2008, cerca de 19 anos, sendo substituído pelo pároco atual . Falamos de Fernando Carvalho, com quem conversamos e ficamos a conhecer melhor as principais mudanças que foram efetuadas na igreja, nomeadamente aquando da renovação realizada no ano na primeira década desta século.
“Eu disse que não, que não podia tomar conta de mais uma freguesia, mas tanto insistiram que eu aceitei. Dá-me a impressão que gostavam de mim, acarinhavam-me”. Foi assim que começou a nossa conversa no que toca à freguesia de Nespereira. Referindo-se à igreja, explicou-nos que tem conhecimento da história da igreja nova, mas foi no tempo dele, mais propriamente a partir de 2002, que se fizeram as obras, na altura, com a nomeada Fábrica da Igreja: “A Igreja estava cheia de infiltrações, o chão era em madeira, aquilo cheirava a mofo, e apareceram lá quatro pessoas: o senhor Litos (José Oliveira Nunes), Justino Nunes, Agostinho Silva e Manuel Pires, que tudo fizeram para que essa renovação acontecesse”, conta.
Na última renovação, destacam-se as pinturas no altar, que foram efetuadas por Adolfo Marques, da freguesia de Freamunde, Paços de Ferreira.

Segundo José de Oliveira Nunes, atual presidente da Junta de Freguesia, quando a Fábrica da Igreja se instalou, no dia 9 de maio em 2002, a o edifício não parecia uma igreja, pois tinha infiltrações de água, soalho podre e muitos problemas: “Fizemos um restauro interior e exterior. As obras custaram no seu todo 135 000 euros. Realço que começamos essa obra apenas com 20 000 euros, que o senhor padre nos deu no início”, recorda o autarca.
Sobre o padre Carvalho, José de Oliveira Nunes considera-o uma pessoa importante para a freguesia. “Gosta de conviver e concordou sempre com a Fábrica da Igreja. Foi um trabalho de equipa muito sério”, afirma.

Maria Antónia com o seu marido Manuel Dias

“Tenho uma certa vitória para contar!”
Sem deixar a história do espaço que circunda a Igreja,  o padre Fernando Carvalho contou-nos a história de uma vitória, relacionada com a casa mortuária, que partilhamos com o leitor.
“O dono da casa do Cárcere era um senhor especial. Queríamos fazer uma casa mortuária e começaram os alicerces perto da porta da igreja. Aquilo iria tapar a vista da igreja e ficar quase em cima da portada do edifício. Eu sugeri que a mesma se fizesse no seguimento das casas de banho, onde está agora, e não me percebi que a mesma iria invadir o terreno desse tal senhor. E o fidalgo, como sinal de posse, colocou em cima um aparelho agrícola. Então, eu escrevi uma carta muito humilde a dizer o que é que aconteceu. A culpa era minha! E assim ele aceitou muito bem e vim aos saltos de contente. Ficamos muito felizes, foi mesmo uma grande vitória.”

Maria Antónia no centro com a sua mãe

Igreja com a configuração atual surgiu na década de 60
Neste percurso de investigação, cruzamo-nos com a atual tocadora do órgão da igreja, Maria do Rosário Martins, filha de Manuel Martins Dias, de 91 anos, e de Maria Antónia Pereira Dias, de 87 anos. Esta nespereirense abriu-nos a porta e pudemos trocar algumas impressões e fotografias antigas.
Segundo Antónia Dias, naquele tempo, havia sempre muita união na comunidade, mas a igreja realmente dividiu a população: “Uns queriam fazer uma igreja nova aqui para cima, à frente do Cristo Rei, que na altura era só monte. Outros não queriam, dado que a seguir era já S. Vicente, ficava na fronteira. Acabou por vencer a ideia de ampliação da antiga”, conta a anciã, descrevendo ao Yes Lousada o edifício do passado: “A igreja, na altura, parecia mais uma capela. Isto antigamente estava ligado ao convento de Bustelo, só depois, mais tarde, se foram fazendo escrituras. Era muito pequenina, não tinha muitas condições, não havia a torre com os sinos. O  que estava lá era um sineiro com um sino. Mais tarde, fizeram primeiro a torre, encostada à capela velhinha, e depois fizeram a ampliação, aumentaram para os lados, para cima e também o altar, ampliando para trás. Foi inaugurada a 1 de setembro de 1968. Foi uma festa muito grande, com muito fogo. Foi mesmo muito grande!”, recorda, com um sorriso.

Maria Antónia com o seu marido Manuel Dias – 1955

No meio da conversa, surgiram muitas curiosidades, entre elas algumas relativas às fotos que ficarão no nosso arquivo. Apesar da divergência de opiniões da altura, Antónia reitera que a comunidade era unida e mostrou essa união no esforço que empreendeu para angariar fundos: “Faziam-se leilões, havia carros de madeira para vender e, nos dias da festas, realço um costume: um rapaz e uma rapariga colocavam flores nas pessoas e angariavam dinheiro com isso. A gente fazia as obras e o dinheiro tinha de aparecer, e aparecia, tinha de ser”, explica Maria Antónia, revivendo o dia 30 de julho de 1953, um dia especial, o do seu casamento: “Casei nessa igreja antes de ser remodelada. Foi uma cerimónia simples. Havia pessoas que faziam casamentos com almoço mas eu não gostava daquilo. Não quis! Foi a cerimónia da missa, viemos a pé da igreja até aqui e tomamos um cafezinho. Fomos passear de carro alugado até à praia. Foi num dia da semana. Eram outros tempos, não havia tanta vaidade nas coisas”.

Canhar o centeio – 1951

Teatro em Nespereira
Maria Antónia recorda-se também de outras atividades que se faziam na freguesia há muitas décadas atrás, como a apresentação de peças de teatro. Aproveitando uma casa que ficou “meio abandonada”, pois os proprietários emigraram para o Brasil,  pensou-se na realização de teatro nesse local. A peça principal era “Os dois jovens cativos”. Os dois cativos foram interpretados por dois irmãos de Maria Antónia, mas esta não ficou fora do elenco: “Eu cheguei a participar, pois gostava da paródia. Participei quando tinha dez anos. Acompanhava também a minha irmã. E o meu avô era da organização. Valeram os bons momentos e o divertimento, pois  “ aquilo não deu para o que se gastou”, termina, sorrindo.

 

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