Santa Águeda / São Cristóvão de Sousela

Santa Águeda / São Cristóvão de Sousela

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Joaquim Hernâni de Almeida Dias

A festa em honra de Santa Águeda/São Cristóvão tem feições religiosas profundas, mas é no profano que radicam as vivências mais originais.

Desde há muitos tempo – pelo menos desde 1710, desde há 318 anos! -, todos os anos, acontece no dia 5 de Fevereiro.

É conhecida como (1) a “festa dos brilhantes” – um ritual clássico entre o sexo masculino e o sexo feminino – uma tradição que desapareceu há alguns anos atrás, mas que estava na origem de outra das suas características por que é conhecida: (2) pelas desordens, acontecimentos que também tinham origem entre romeiros que aqui “acertavam contas” dando origens a acontecimentos muitas das vezes infortúnios com lesões graves e mortes de pessoas; (3) conhecida como a “festa dos doces” – que era a alegria dos mais jovens e pobres da freguesia – nos anos 1960 – ao procurarem umas míseras moedas transportando toda a logística e o produto dos comerciantes desde a estrada nacional 106 até ao espaço da festa, em São Cristóvão.

Caminho estreito, de terra batida, os pipos eram transportados em carros de bois, os romeiros preenchiam a paisagem num vai-e-vem constante desde manhã bem cedo até à noite. A estrada nacional 106 entre o então Lugar da Boavista até quase ao cruzamento do “Balão” (Sousela-Lustosa-São Pedro da Raimonda-Barrosas) em Lustosa, estreitava com as camionetas de alugar vindas de toda a parte. De uns anos para os outros, isto nos anos 1960, aferia-se o sucesso da festa, pelo número de camionetas de aluguer ao longo da estrada.

Era inverno – havia por vezes a chuva, o vento, e a neve. Mas que bonito era ter a neve, o branco da candura espiritual no dia da festa! Pois claro, era outro motivo para os mais pequenos brincarem às construções e a guerras simuladas do tipo “intifada”.
A Santa, mártir, viveu no séc. III. Filha de família nobre, desde jovem consagrou a sua vida a Jesus, recusando outros jovens em casamento, o que levou a que ela fosse acusada às autoridades pela sua fé. Mesmo submetida a suplícios horrendos, como ter os seios arrancados por tenazes, Águeda nunca vergou a sua fé, reafirmando que a única salvação para a sua dor era Cristo.
São Cristóvão é o padroeiro dos viajantes e dos transportadores. A túnica verde de São Cristóvão significa a esperança de São Cristóvão de estar ao serviço do mais poderoso de todos: Jesus Cristo; o avental marrom de São Cristóvão simboliza sua humildade e serviço; o menino Jesus nos ombros de São Cristóvão significa que cada vez que o santo atravessou alguém no rio, atravessou o próprio Jesus; o globo na mão direita do Menino Jesus simboliza que Jesus é o Senhor.

No dia da romaria as capelas ( que terão sido edificadas no século XVIII) estão abertas e bem adornadas.

Recuando no tempo, encontrei um documento do Século XVIII (1731), que nos diz como eram essas festas em São Cristóvão: “…que havia uma quantidade enorme de devotos, e que havia tantos sacerdotes para a celebração, que por falta de um altar e de uma capela, alguns desses sacerdotes nem sequer tinham a oportunidade de celebrar missa com os romeiros”.

Atualmente a festa já não tem as características desses tempos, nem dos mais recentes, e muito menos dos mais remotos.

Mesmo assim, no dia da romaria as pessoas cumprem as suas promessas, assistem à missa, trazem as merendas e distribuem-se pelo monte a nascente (outrora ocupavam igualmente ambas as margens do Rio Mezio) confraternizando em família, com os amigos, e com o próximo, partilhando o salpicão, os doces e o vinho. Canta-se, dança-se, mas nunca na dimensão de antanho. Vai perdendo fôlego. Mas… é sempre uma festa!

Joaquim Hernâni Dias

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