A Eletrificação no concelho de Lousada

A Eletrificação no concelho de Lousada

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Joaquim Hernâni de Almeida Dias

Sousela – um exemplo.

No período [1928-1950] não existe qualquer central elétrica em Lousada

Os fornecedores locais foram:

  • A Elétrica Duriense (ED); (2) A Sociedade Rio Bugio; (3) A União Elétrica Portuguesa (UEP); (4) Companhia Hidroeléctrica do Varosa; (5) A Companhia Hidroeléctrica do Norte de Portugal (CHENOP)

 Os distribuidores locais:

  • Câmara Municipal; (2) Cooperativa Elétrica de Vilarinho; (3) Sociedade Cooperativa Distribuidora de Energia Elétrica A Lodabi
  • Às freguesias da Ordem, Sousela, Covas e Figueiras, depois de 1950:
  • SOCIEDADE ELECTRIFICADORA DO VALE DO MESIO LDA, com sede no Lugar do Ribeiro, em Sousela

A escritura de constituição foi realizada em 26 de Fevereiro de 1948, em Lousada; a sociedade constitui-se com 112 capitalistas: de Santa Eulália da Ordem (28), de São Salvador de Figueiras (20), de São João Evangelista de Covas (14), de Nossa Senhora da Expectação de Sousela (33); de outras localidades, sendo alguns deles originários de cada uma destas freguesias (17)

A escritura de constituição foi realizada em 26 de Fevereiro de 1948, em Lousada; a sociedade constitui-se com 112 capitalistas: de Santa Eulália da Ordem (28), de São Salvador de Figueiras (20), de São João Evangelista de Covas (14), de Nossa Senhora da Expectação de Sousela (33); de outras localidades, sendo alguns deles originários de cada uma destas freguesias (17) [1]

[1] Arquivo Distrital do Porto – Cartório Notarial de Lousada, ano de 1948

O capital da sociedade era de 209.000$00, o valor das cotas variavam entre os 500$00 e os 9.000$00. Atualizando este valor com a aplicação do coeficiente 85,09, temos um capital na ordem dos 17.780 contos [= 89.000 euro]

Conclusão: Ordem, Sousela, Covas e Lousada foram as últimas freguesias do concelho de Lousada a serem eletrificadas. Esta sociedade de capitalistas denominada Sociedade Eletrificadora do Vale do Mesio, Lda. foi muito importante para o progresso em cada uma destas localidades. “Apesar de que algumas delas, ou todas… segundo algumas versões orais se desenrascavam por meios próprios para terem a energia de que tanto necessitavam, mesmo antes da sua instalação”, afirmação que carece, todavia, por enquanto, de factos históricos concretos para se aferir melhor a dimensão deste processo da eletrificação de Lousada e suas freguesias, ao tempo.
E com esta iniciativa, (quiçá esta mesma iniciativa tenha sido despoletada já pela intenção/vontade, a causa da eletrificação) foi possível iniciar a industrialização, pelo menos na freguesia de Sousela, através da indústria têxtil – ligaduras e pano, produto eu era “exportado” maioritariamente, senão na totalidade (?) para as ex-colónias.
Sousela, Lustosa (do concelho de Lousada), Freamunde (Paços de Ferreira), terras do Vale do Sousa, fazem fronteira, e ligação ao Vale do Ave – Vizela, Moreira de Cónegos, Vilarinho, São Martinho do Campo, Riba D’Ave, Aves, Negrelos, Santo Tirso… – por isso não é “estranha” esta iniciativa em Moreira (com a fiação Leonardo Ferreira Neto) e em Sousela (com a Fiação José Duarte).
Sem a eletrificação jamais teria sido possível o “trabalho caseiro” com os teares mecânicos, que no caso de Moreira se expandiu de um extremo ao outro do lugar: Alcina Coelho (São Cristóvão), José Carvalho da Mota e Manuel Pacheco (Carvalho), Alzira (na Moimenta), a Arminda Gonçalves (em Cimo de Vila) a Maria Pisca (nos Secos) e António Morais (Aldeia?, Agra de Moreira?). E esta indústria caseira ainda se expandia para Lustosa, embora solitariamente.
Foi um contributo económico-social de peso para a aldeia dessa época (com predomínio absoluto do setor primário nessa altura), e assim seria até finais dos anos 1970. O fim da guerra colonial marca o início do declínio dessa indústria primitiva.
Foi este processo extensivo a toda a população? Em princípio era um processo aberto, suscetível de beneficiar toda a população. Mas a verdade é que os rendimentos per capita não permitiam a todas as famílias usufruírem dessa “maravilha” – por muitos anos, mesmo muitos anos ainda foi possível ver inúmeras famílias a utilizar o azeite (lamparinas e nas candeias), o petróleo – mesmo assim já era um pequeno luxo entre os mais pobres (nos candeeiros), ou químico (no gasómetro, cheiro horroroso!) e a “velhinha” vela – a alumiar as casas e o espírito das famílias. A poupança às vezes até exigia que qualquer um destes meios fosse substituído por uma fogueira mais forte na lareira ou lar da cozinha. Em 1964/1965 ainda era possível encontrar esta iluminação primitiva em muitos lares da aldeia.
Um “mundo” que de per si daria um livro de poemas ou um romance, se fossem contadas todas as singularidades que o imaginário construía nesse universo de sombras e silêncios. Ou na proximidade e solidariedade das almas no desconforto da vida.
Joaquim Hernâni Dias
[1] Centro Documentação Fundação EDP
[2] ”Estatísticas das instalações elétricas em Portugal”, 1928-1950, Faria, Fernando Manuel; I.N.E.;João José Monteiro Figueira, O Estado na Eletrificação portuguesa – Da Lei de Eletrificação do País à EDP (1945-1976), 2012 – Faculdade de Economia Universidade de Coimbra.
[3] Arquivo Distrital do Porto – Cartório Notarial de Lousada, ano de 1948