Cruzeiro de Nogueira: acidente recupera as origens

Cruzeiro de Nogueira: acidente recupera as origens

Memórias de um passado no presente dos lousadenses

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Em Nogueira, fez-se história, há alguns meses, com o surgimento de um novo cruzeiro em granito, na rua de Guindes. O antecessor, em mármore, manteve-se durante anos no local, mas foi destruído por um camião que, por acidente, o derrubou.

O monumento foi alvo de alguns reparos, nos últimos anos, como contou ao nosso jornal Fausto Oliveira, presidente da união de freguesias que integra Nogueira. O autarca lembra que, quando assumiu funções, “havia várias posições relativamente àquele cruzeiro, a maior parte delas de algum descontentamento”. O facto de ser em mármore, a falta de enquadramento, a obstrução espacial que fazia à entrada da rua… eram algumas das razões elencadas pela população, segundo Fausto Oliveira. “Existiam pessoas que defendiam a ideia de que era necessário retirar o cruzeiro daquele local”, recorda.

“Há males que vêm por bem”

Entretanto, o acaso encarregou-se de começar a resolver o problema, quando, ao tentar fazer a manobra para contornar o monumento, um motorista de camião o derrubou: “Era uma construção em cimento, os ferros já estavam muito apodrecidos e, se não fosse por aquele motivo, um dia iria certamente cair”, afirma. É caso para dizer que “há males que vêm por bem, pois, como explica o presidente da União de Freguesias, o facto de se ter tratado de um acidente permitiu acionar o seguro e, assim, este pagou uma parte substancial do novo projeto. “Temos de dividir a obra em três partes: o seguro pagou apenas o cruzeiro, que é a primeira parte. O implante da rotunda, que foi renovada, e o alargamento do espaço ficou de fora. O cruzeiro custou-nos 4 000 (mais IVA), perto de 8000 euros com a parte de baixo, e despendemos mais 1500 euros com a construção do muro em termos de mão de obra, porque a Câmara também colaborou”, esclarece.

O retorno ao granito

Depois do acidente, era preciso decidir se o cruzeiro deveria ser erigido no mesmo local. A decisão foi a sua manutenção nesse espaço, principalmente por razões históricas, como explica Fausto Oliveira, razões essas que também justificam a escolha do material: “Tentei perceber junto das pessoas mais antigas como era o cruzeiro antigo e, de facto, existe lá ainda o pedestal do cruzeiro antigo: era um cruzeiro simples, em pedra. Em função disso, nós decidimos voltar à pedra, escolhemos o tipo padrão, porque é um cruzeiro mais tradicional nesta região. Quisemos acrescentar na base o brasão da freguesia de Nogueira”. Faltava, no entanto, resolver o problema da fluidez de trânsito no local. Para solucionar o problema, a solução foi o alargamento na rua naquele local: “Negociamos com o proprietário o terreno para fazermos o alargamento da rua, para permitir ali uma fluidez melhor no trânsito, e fizemos uns estudos nesse sentido, para que um caminhão pudesse passar por ali a vontade”, explica Fausto Oliveira.

Durante todo este processo, ficou bem claro o apego das pessoas da terra ao monumento. O autarca lembra que, logo após o acidente, houve quem acusasse a junta de o querer derrubar, “o que é completamente falso”, diz. Ultrapassada esta questão, surgiu o problema da demora temporal para se resolver o problema. “As pessoas queriam uma solução muito rápida, mas eu expliquei que precisava de tempo, pois o seguro teria que fazer a análise, tínhamos que apresentar orçamentos, era preciso um estudo e também a questão do alargamento”, refere, considerando o tempo de espera razoável, cerca de cinco meses.

Nogueirenses satisfeitos com recuperação do Cruzeiro

A fotografia (2) que apresentamos nesta edição, com o novo cruzeiro, leva-nos a uma figura muito conhecida na freguesia, entretanto falecida, que se envolveu na discussão sobre este monumento. “Essa fotografia é uma referência muito interessante e sobretudo para recordar um homem muito carismático, com uma personalidade muito forte, que é o Quim Tónio. Ele era daquelas pessoas que mais lutou para que lá estivesse o cruzeiro e chegou a pôr lá um cruzeiro em madeira na altura da Comunhão Solene”, recorda Fausto.

Joaquim Costa (Quim Tónio) não abdicava do cruzeiro naquele lugar, contra algumas pessoas que achavam que deveria ser mudado. Mas o mesma pessoa que alimentou esta disputa foi o responsável pela festa de união em torno do novo cruzeiro de granito. Fausto Oliveira conta-nos como tudo aconteceu: “Numa determinada altura, ele ligou-me para saber se podia deitar lá umas bombas e foguetes para comemorar a inauguração do cruzeiro. Eu respondi que o local era público e a manifestação pública poderia existir, pois nós não iríamos fazer a inauguração na época de eleições… Eu só havia combinado com o Padre fazer a bênção na altura em que passasse a procissão. Entretanto, ele convidou-me, ao antigo presidente da junta, ao meu adversário naquela época e a algumas pessoas mais conhecidas. Havia lá um grupo de bombos! Fez a festa à moda dele e fizemos um brinde. ‘Só o Quim Tónio para reunir tanta gente tão diferente’, foi a opinião geral daqueles que lá estavam”.