Ténis veio para ficar

Ténis veio para ficar

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Ténis Atlântico é um projeto Ibérico sediado em Lousada, resultado de um protocolo entre as Associações de Ténis do Porto, Aveiro, Coimbra e Leiria e de Espanha (Federacíon Gallega de Ténis). O objetivo é desenvolver o ténis desta euro-região peninsular. Esta marca está registada e é um instrumento fundamental para assinalar, referenciar e divulgar uma forma de estar, viver e praticar ténis, tanto em Espanha como em Portugal, como em qualquer cenário internacional.

A adesão a este projeto Ibérico pretendeu dar respostas a uma população sedenta de novas ofertas desportivas. Este projeto, Ténis Atlântico no Vale do Sousa, tem sua sede em Lousada e também tem um clube, o Ténis Atlântico, formado em 2008, que pretende fomentar a prática do ténis, promover o intercâmbio desportivo/cultural através de um clima de fair play, e permitir o estreitar de relações entre os residentes da zona do Vale do Sousa.

O Ténis em Lousada

É uma história com perto de 20 anos. Nessa altura, Jorge Magalhães era o presidente da autarquia de Lousada e tinha como ambição construir um grande complexo desportivo. Essa ambição tinha vários objetivos e um dos principais era que o concelho fosse mais eclético em termos desportivos. Para esse fim, procurou alternativas desportivas, entre elas o râguebi e o ténis. Estas opções foram, na altura, postas em causa politicamente, com muitos a considerarem o complexo desportivo de Lousada um “elefante branco”, sem retorno para os lousadenses, críticas que, entretanto, se foram dissipando. Nesta altura Lousada Ténis Atlântico destaca-se por ser o clube com maior número de atletas, liderando também na relação entre atletas e número de campos do disponíveis. Ficando à frente de clubes históricos como a Escola de Ténis da Maia ou Clube de Ténis do Porto. Neste sentido, Lousada é já uma referência no panorama do ténis nacional.

Paes Faria, presidente da Associação de Ténis do Porto, relembra os primeiros anos deste projeto, que foi sempre bem recebido pela Federação e Associação de Ténis do Porto: “Queriam colocar este projeto mais lá para cima e com bancadas. Segundo o arquiteto responsável, teria umas vistas mais bonitas. Fomos da opinião de alterar aqui para baixo. Tivemos de redesenhar tudo. As bancadas, necessárias provisoriamente, colocam-se e tiram-se”, explica o dirigente.

Sobre os objetivos do ténis no complexo, Paes Faria esclarece que a autarquia nunca pretendeu criar infraestruturas para lazer ou turismo, mas sim condições para a prática desta modalidade com qualidade no concelho. E assim se começou a desenhar ideia, em 1999. Em 2005, nasceu o Lousada Ténis Atlântico. 2007 foi também um marco importante nesta caminhada, com as federações portuguesa e espanhola juntas na cerimónia de lançamento da primeira pedra, tendo os campos sido inaugurados em outubro de 2008 e em 2009. Estas instalações foram cedidas ao clube. Em 2016, verificou-se a conclusão do pavilhão onde estão os courts cobertos.

Paes faria foi jogador de voleibol até aos 19 anos, tendo o ténis surgido na sua vida pela mão do seu avô. Foi na arbitragem desta modalidade que alcançou mais progressos, tendo sido internacional. Esta experiência tornou possível o conhecimento da modalidade a nível mundial. Relembra em especial o primeiro Estoril Open, sendo uma das suas grandes provas internacionais em Portugal. Conheça melhor o percurso deste homem e o trabalho que tem sido desenvolvido na divulgação do ténis, na entrevista que se segue.

YES Lousada (YES): Como surgiu a sua ascensão à presidência da Associação de Ténis do Porto?
Paes Faria (PF): Em 82 e 83, convidaram-me para dar umas aulas de ténis. Aproveitaram e colocaram-me na altura como diretor. E foi desta forma que comecei a conhecer melhor o associativismo. Alguns anos depois, após cumprir o serviço militar, um amigo meu que estava ligado à AT do Porto convidou-me para ser vogal da associação e, durante muitos anos, o que fiz foi organizar provas, até que, em 2003, disseram “estás aqui há muito tempo, tens de passar a presidente”.

YES: O que releva mais no vosso trabalho?
PF: O mais importante foi convencer todas as pessoas da necessidade de afirmação do ténis na região. Há aqui no Norte uma cultura de ténis muito forte, no Porto, Guimarães, Lousada, em Viana… Não só pelo número de pessoas que jogam, mas também pela qualidade. Neste momento, a campeã nacional é a Francisca Jorge e o campeão nacional é o João Sousa, ambos de Guimarães, temos também o João Monteiro do Porto e, nos veteranos temos os melhores jogadores. Destaco o escalão juvenil, onde ganhamos os campeonatos quase todos. Temos um trabalho muito meritório.

YES: Qual a importância do Lousada Ténis Atlântico para a AT Porto?
PF: Quando eu fui para a Associação, já se falava de termos de arranjar umas instalações próprias e não só para estágios, mas também para fazer os seus torneios. Havia sempre esse sonho. Em Lisboa, desde 82, tinham isso em Monsanto. Espetacular! É um mini estádio nacional do Jamor. A câmara de Lisboa entregou aquilo à associação e realmente Lisboa conseguia fazer coisas que nós não conseguíamos. Na área do Porto, tentou-se, mas tínhamos muita dificuldade, era um trabalho na zona urbana, difícil de implementar. Até que surgiu esta oportunidade. Era um projeto do nada, que tinha vantagens e desvantagens. Os clubes, na altura, aprovaram-no, mas mostraram algumas reservas: os cerca de 50 kms, etc. Felizmente, hoje em dia, não há clube nenhum, nem atleta que já não tenha passado por aqui. Aqui tínhamos tudo o que pretendíamos: um centro de estágio, estava dentro do trabalho de um complexo, tinha uma autarquia empenhada no projeto, era um projeto estratégico para a região, as acessibilidades eram fáceis, 50 kms não é nada… Sabíamos que iria ter autoestradas para Espanha… Isto, de facto, está numa excelente posição estratégica. Se verificarmos no distrito, a localização é muito central. Nós vimos isso e, felizmente, aqui estamos. Foi-se trabalhando devagarinho e temos aqui um projeto muito interessante.

YES: Qual foi o principal desafio lançado pela autarquia à vossa Associação?
PF: O compromisso com a autarquia passa por desenvolver o ténis em Lousada. Existe um grande jogador, chamado Jack Krammer (nº 1 do mundo nos anos 50 e 60), que nos diz serem necessários 5 anos para aprender ténis, 10 para ser bom jogador e 15 anos para se ser campeão. E nós colocamos isto no projeto: 5 anos para marcar bem o projeto, 10 anos para ficar bem dimensionado e depois os 15 anos para fazer toda a diferença. Aqui é importante que a maior parte dos cidadãos de Lousada passe por aqui ou tenha tido uma experiência de ténis. Sabem que podem jogar aqui ou em qualquer lado. Por essa razão, começamos a dinâmica do ténis nas escolas primárias. Temos o programa “A minha escola tem ténis”, que tem doze escolas já, e o desporto escolar, que passa todo por aqui. Temos ténis nas escolas e os miúdos que vêm aqui jogar não pagam. Isso é fundamental, pois estas gerações que vêm a seguir é que vão alimentar isto. Isto tem sido um êxito tal que a federação aproveitou este nosso trabalho para o replicar pelo país fora.

YES: Nestes anos todos nota essa progressão?
PF: Valeu a pena, sem dúvida. O mais difícil é mudar as mentalidades. O material do ténis era caro, mas hoje em dia não. Cada vez há mais campos públicos. Aqui temos um espaço aberto e todos podem vir cá jogar.
Ao longo do ano, realizam-se vários torneios, até um internacional. Todos os torneios são importantes. O primeiro objetivo foi local, o segundo nacional e regional. O terceiro é a internacionalização, com duas medidas: as provas e trazer tenistas internacionais para aqui. A nível local, está cumprido, pois temos aqui muita gente a jogar. Temos ainda de chegar a mais pessoas, a nível regional e nacional. Temos aqui os campeonatos regionais juvenis praticamente todos, as provas de equipa jogam-se praticamente todas aqui, temos as seleções regionais a treinarem aqui e, a nível nacional, já temos o campeonato nacional de sub18. É importante pois é a rampa de lançamento para sénior. Temos aqui um campeonato nacional de veteranos, que é uma competição dura, e temos as chamadas três provas de nível A.

A nível internacional, começamos no ano passado com a Winter Cup e, neste ano, vamos ter pela primeira vez duas provas internacionais femininas em campos cobertos. Existem muitas, mas em campos cobertos é a primeira vez.

YES: No passado, surgiu neste jornal a questão da importância da utilização dos quatro campos cobertos para realizar provas internacionais. O que mudou?
PF: No projeto são quatro campos e estão lá os quarto. A autarquia entendeu que era importante ter ali um campo de madeira para basquetebol ou outras modalidades, mas é uma situação provisória. São quatro campos necessários para realizar as provas mais importantes e os estágios de escalões maiores, além por exemplo de jornadas de fomento de ténis. Por isso, esse campo que não está a ser utilizado para ténis está fazer-nos falta. Para já, trabalhamos com o que temos e sabemos que a autarquia está a estudar outras hipóteses. A partilha com outras modalidades acontece também noutros sítios, mas há sempre uma modalidade base. Aquele piso técnico é do ténis.

YES: Está satisfeito com o relacionamento com a autarquia?
PF: O nosso relacionamento com a autarquia é muito bom. O seu objetivo era colocar Lousada na rota do ténis, estamos a renovar esta relação e sabem que precisamos a breve prazo daquele campo. Nós comprometemo-nos sempre em dar vida a isto. O apoio que temos é receber isto e tratar disto. Nós não recebemos nada financeiramente da autarquia. Temos algum apoio nos torneios internacionais, além de situações pontuais, para a existência deste espaço. Temos obrigação de o gerir bem e mais nada. Não somos contra os outros receberem apoios. O trabalho que temos feito com a autarquia tem sido em equipa, acabando por conseguir ter soluções em conjunto. É uma união que se vai conseguindo desenvolver da melhor forma ao longo dos anos.

YES: O falta fazer neste complexo desportivo para a prática do ténis?
PF: O objetivo é fechar o projeto. Falta aqui a casa do ténis, com os balneários e com um sítio onde as pessoas possam estar. Está mesmo a fazer falta. Ainda vão ser implementados mais 4 campos de ténis, com piso sintético, e vai ser colocado o Padel, que vai atrair muita gente. Gostaríamos, neste período olímpico, de fechar as instalações. O outro ponto é continuar a colocar cada vez mais Lousada como um ponto de encontro do ténis nacional e que não haja ninguém de referência do ténis nacional que não tenha passado por aqui.

YES: Há vida aqui no ténis?
PF: O ténis traz muita vida ao concelho de Lousada. Podem jogar homens e mulheres dos 5 anos aos 90 anos, com cadeira de rodas… É muito inclusiva esta modalidade, todos ganham com a aposta nesta modalidade. O comércio, a restauração e até o turismo no concelho e na região ganham com os milhares de praticantes e famílias que passam aqui ao longo do ano.

YES: Recentemente, foram galardoados com o prémio modalidade do ano. Refiro-me à Gala do Desporto de Lousada. O que diz sobre este prémio?
PF: Isto sobe e muito a nossa fasquia de responsabilidade. O ténis foi a modalidade escolhida como modalidade do ano. Eu reuni a seguir com todos os colaboradores do Lousada Ténis Atlântico, quis fazê-los sentir essa responsabilidade. Este é um reconhecimento da comunidade e isso para todos nós foi uma grande alegria, mas acima de tudo uma grande responsabilidade, pelo menos para esta comunidade que não tinha ténis e já o olha como seu. Isso é muito importante.

YES: Quais são as principais dificuldades na concretização das vossas ambições?
PF: A Associação de Ténis do Porto tem as suas instalações desportivas aqui em Lousada. O coração é aqui. Essa é uma componente e depois temos uma outra componente: a escola em Lousada. A nossa gestão é lidar com as realidades diferentes que a associação tem. Para o exterior, as nossas maiores dificuldades são aquelas que têm a ver com o facto de as instalações ainda não estarem terminadas. E potenciar mais o que temos. Temos inventado um pouco, mas, se houvesse a ‘casa do ténis’, não seria necessário. Será importante, pois, neste momento, não temos balneários.

YES: Quer deixar uma mensagem final?
PF: O Lousada Ténis Atlântico é um projeto, uma escola, instalações que, em primeiro lugar, são de Lousada. Usufruam, porque não há muitas terras em Portugal com estas instalações. Conheço muitas coisas de desporto e em poucos sítios há isto. Temos aqui uma excelente equipa técnica e estamos aqui inteiramente ao dispor. Usem e abusem.

 

 

 

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