O casamento á moda antiga (I)

O casamento á moda antiga (I)

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Depois de meses ou até anos de namoro, principalmente ao domingo de tarde, à porta da casa da rapariga, sempre vigiada pela mãe ou por um irmão ou irmã mais velha, chegava a hora de combinarem o casamento.  Depois de meses ou até anos de namoro, principalmente ao domingo de tarde, à porta da casa da rapariga, sempre vigiada pela mãe ou por um irmão ou irmã mais velha, chegava a hora de combinarem o casamento.

Já foram imensas cartas de amor escritas um ao outro; já passaram bastantes desfolhadas, vindimas e trabalhos do linho onde o moço conseguiu um beijo “surripiado” ou um aperto de mão mais bem apertado; já houve bastantes juras de amor e já se ansiava pelo dia grande do casamento. O rapaz já tinha pedido a “mão da namorada” ao pai da rapariga e este já tinha dado o consentimento e portanto formalizado o noivado. Para aqueles rapazes que tinham algumas posses era selado com a oferta à moça de um anel de ouro ou prata e aqueles moços que não tinham posses económicas ofereciam uma simples flor, principalmente uma rosa que era correspondida pela oferta de um “lenço de namorados” ou “lenço de pedidos”, bordado à mão, normalmente possuindo algures no seu seio, um ou mais corações de “cupido apaixonado”, para além de frases e simbologias próprias do amor.

Em todas as localidades portuguesas namorava-se para casar e casava-se para consolidar o património, ter filhos e amparar a família. A relação mais íntima iniciava-se no dia do consentimento do pai da rapariga. A mãe já estava a par do dia que iria ser proposto para o casamento pois já tinham sido feitas as contas ao período de fertilidade da filha. Já se podia dar início aos preparativos do evento.Tudo combinado era preciso ir falar com o Padre da freguesia. Normalmente iam os dois à casa Paroquial e entregavam ao Sr. Abade toda a organização administrativa, tanto civil como religiosa, do casamento, nomeadamente os banhos ou pregões e todo o ritual inerente à cerimónia religiosa.

Durante três domingos seguidos, antes do dia do casamento, o Sr. Abade proclamava nas missas a intenção dos noivos em se casar, convidando os fiéis para o casamento e rogava a quem tivesse razões para o impedir que o fizesse perante a Igreja.Por este trabalho era cobrada uma quantia em dinheiro pago pelo noivo e terras havia em Portugal que no primeiro domingo das proclamas os noivos ofereciam ao padre uma galinha e um quarto de borrego. Em Niza, segundo uma investigação e recolha do autor, o padre recebia dinheiro, meio alqueire de trigo, 2 litros de vinho, um quarto de quilo de carne de porco e uma galinha.

Naquele primeiro encontro com o padre era indicado aos noivos que teriam de se confessar antes do casamento, e perguntava-lhes se tinham pensado bem na decisão que tinham tomado. Já lá dizia o ditado: “antes que te cases, pensa no que fazes” acrescentava o Pároco, pois com o casamento ficariam unidos para a vida toda!… e continuava: “o vínculo matrimonial é, por instituição divina, perpétuo e indissolúvel, uma vez contraído, não se pode romper senão com a morte de um de vocês!…” Estão a perceber?… E antes de saírem ainda ouviam da boca do prior, com voz de mestre, os seguintes “pensamentos” em verso:

I

Dei um nó na minha vida

“Nunc’ò” eu chegara a dar

Dei-o com a mão direita

Não o posso desatar.

II

Nem no mundo há dois mundos

Nem no Céu há dois Senhores

Não há coração que possa

Ser leal a dois amores!…

Por: Altino Magalhães