Os “TEMPERILHOS” e os “REMEDILHOS”

Os “TEMPERILHOS” e os “REMEDILHOS”

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Altino Magalhães

Chegados ao último mês do ano, os nossos antepassados tinham necessidade de começar a prever o que iria acontecer no “Ano Novo” que se avizinhava, principalmente no que diz respeito à meteorologia, para que as tarefas agrícolas fossem programadas com bastante antecedência, pois havia que “rogar” as pessoas para virem ajudar, havia que prevenir para os períodos das sementeiras, do amanho das terras e de outras programações de tarefas campesinas e de criação de gado, que entendiam fazer ao longo de todo o ano.

Assim, o tempo que fazia em várias ocasiões e dias do ano, era presságio usado para se prevenirem do tempo que iria fazer ao longo do ano que se aproximava.

Então, começava-se a observar o tempo no dia 13 de dezembro (Dia de Santa Luzia) até ao dia 24 – os Temperilhos, e, recomeçava-se no dia 26 de dezembro, até ao Dia de Reis (dia 6 de Janeiro) – os Remedilhos. O dia de Natal não contava!… Terras há em que se denominam estes “saberes populares” como “Têmporas de Santa Luzia” e eram “boletins meteorológicos” de eleição, tendo em linha de conta, também, pelo tempo que fazia no dia da “Senhora das Candeias, da Luz ou da Purificação” (dia 2 de Fevereiro): – “Quando a Candelária chora (está chuva), o inverno está fora. Quando a Candelária rir (está dia de sol), está o inverno para vir”; pelo tempo que fazia nas mudanças das fases da lua e suas posições (lua barqueira – em forma de barco – é sinal de tempo instável); pela orien-tação dos ventos (“vento de Norte trás pouca sorte!”); pela cor, tamanho, posição e movimento das nuvens; pelo voar raso dos pássaros ou quando se empoleira-
vam em grupo; pela vermelhidão do céu pela manhã; pelo arco-íris no oeste; pelo som de determinados sinos das igrejas que normalmente não se ouvia; pela observação das ondas do mar e pela observação do comportamento de alguns animais, nomeadamente as formigas, as aves, as abelhas e borboletas ou quando as vacas se agachavam era sinal de tempestade, tornaram-se ao longo de muitos e muitos anos, em tradições que eram transmitidas de geração em ge-ração e que todos aproveitavam para prever os bons ou maus “ventos” que aí viriam!…

Não se sabe se estas tradições são de origem religiosa ou de origem pagã, mas sabe-se que esta “ciência natural” apareceu de muitos e muitos anos de obser-vações e que estes “saberes populares” passaram de pais para filhos, com o intuito de resolver e prevenir muitos estragos que o tempo fazia, para as culturas do milho, do vinho, do centeio mas principalmente do linho. Como se disse atrás, nos Temperilhos começava-se a observar o tempo no dia 13 de dezembro (Dia de Santa Luzia), e terminava-se na véspera de Natal (dia 24 de dezembro). Associava-se o tempo que fazia
em cada dia, à previsão do tempo no mês do próximo ano. O tempo que fazia no dia 13 associava-se ao mês de janeiro e assim sucessivamente, cruzando um dia a cada mês do ano, até ao dia 24 que era ligado ao mês de dezembro. Iniciavam-se a 26 de dezembro os Remedilhos (há zonas do norte de Portugal que lhe chamam “arremedi-lhos”) que iriam remediar e compensar a informação do estado do tempo obtida nos temperilhos, mas de forma inversa ou seja, o tempo que fazia no dia 26 iria ser o tempo que corresponderia ao mês de dezembro e o dia 6 de janeiro ao mês de Janeiro. Portanto, nos remedilhos, cada dia também corresponde a cada mês do ano mas começando no mês de dezembro e acabando no mês de Janeiro. Conforme estiver o dia vai remediar o temperilho. Isto é, por exemplo se no dia 15 de dezembro e a 4 de janeiro chover, então o mês de Março será chuvoso. Caso não sejam coincidentes então o tempo em Março aproximar-se-á mais do dia do remedilho, ou seja do tempo que faz a 4 de janeiro. Por outro lado, tanto nos temperilhos como nos remedilhos da meia noite até ao meio dia corresponde à primeira quinzena do mês e do meio dia à meia noite corresponde à 2ª quinzena, sendo que nos remedilhos as horas são contadas ao contrário.

Estas previsões normalmente variavam de zona para zona, sendo que por vezes, terras vizinhas previam climas muito diferentes, apesar de distarem poucos quilómetros, pois “cada terra com seu uso e cada roca com o seu fuso!…”

Nota: A crónica que deveria sair nesta edição deveria ser a “INSTRUMENTOS MUSICAIS TRADICIONAIS (III)”, mas devido à pertinência do período em que decorrem os temperilhos e remedilhos (haja algum dos nossos leitores que por obséquio, façam a experiência e os devidos registos, a partir do dia 13 deste mês e que para o ano nos mostrem se efetivamente os nossos avoengos tinham ou não razão), achamos que seria melhor apresentar esta crónica nesta edição, antes da 3ª parte do tema anterior que irá sair daqui a quinze dias…