“Neste tempo, e à medida que crescemos, sentimos que felicidade não a...

“Neste tempo, e à medida que crescemos, sentimos que felicidade não a encontramos nas coisas mas nas pessoas”

Entrevista com Padre Paulo Godinho

COMPARTILHE

Natural de Ovar, o padre Paulo Godinho tem 29 anos. Este ano, o YES Lousada quis conhecer a visão do Natal do mais jovem pároco em Lousada. No concelho há quatro anos, conhece já bem as gentes e as tradições do concelho.

YES: O Natal está à porta. Como descreve a época natalícia?
P. Paulo Godinho: Estamos a poucos dias do Natal, mas o espírito natalício já se respira e se sente desde alguns dias. Trata-se de uma época particularmente especial a todos os níveis…uma época em que muitos são os sentimentos que vêm à flor da pele das pessoas em virtude das lembranças familiares, dos momentos vividos, das recordações do passado. É uma época carregada de solidariedade mas que quer traduzir o espírito de todos os dias. É também uma época de correrias e de azáfama.

YES: Está já em Lousada há alguns anos. Como é viver o Natal em Lousada?
PG: Viver o Natal em Lousada é especial porque é viver este tempo com pessoas especiais, com pessoas que fazem parte da minha vida. Por outro lado, é especial ao ver Lousada revestir-se de cor, luzes e música, a juntar-se este ano de modo particular os presépios nas rotundas e nas lojas (iniciativa interparoquial de Boim, Cristelos, Pias e Silvares), procurando evidenciar o PRESÉPIO COMO LUGAR DE ENCONTRO PARA TODOS.

YES: Certamente tem presentes as memórias do Natal da sua infância. O que recorda como mais marcante?
PG: Sempre gostei muito de viver o Natal, aliás, quando criança estava sempre ansioso que o Natal chegasse pois com ele trazia, para além dos presentes, um tempo de encontro familiar, de convívio, de brincadeira, um tempo feliz. Recordo a panela de ferro que cozia as batatas e o bacalhau em casa da minha avó materna, recordo a aletria da minha avó paterna…Enfim, coisas que passam mas o sentimento fica…

YES: Relaciona-se com muitas crianças e jovens. Como caracteriza a forma como vivem o Natal?
PG: Esta é uma pergunta difícil de responder uma vez que há toda uma marca muito pessoal que é impressa na vivência desta quadra natalícia. Todavia, no modo como este tempo é vivido, torna-se importante não perder de vista a essência do Natal, pois, como o próprio nome indica, é a celebração da natividade de alguém, do nascimento de Jesus.

YES: Relativamente à sua infância, o Natal que agora se vive é diferente?
PG: É natural que haja diferenças, os tempos são outros, as pessoas são outras, por isso outros são os costumes, outras são as distrações, enfim, há diferenças, mas ainda há muito em comum.

YES: Muitos criticam o facto de o Pai Natal tem ganhado protagonismo, relegando para segundo plano a verdadeira razão do Natal: a figura de Cristo. Qual é a sua opinião?
PG: Na minha vida, o Menino Jesus sempre teve protagonismo na vivência do Natal em virtude da marca cristã com que o Natal sempre foi vivido. A respeito desta constatação, não considero que se trate de uma questão de planos. Aliás consta-se que o Pai Natal surge inspirado numa figura cristã, o bispo Nicolau, que decidiu distribuir presentes aos mais necessitados…O fundamental é não perder o essencial do Natal, é perceber que não é possível viver o Natal, o nascimento, sem referência a Cristo. Caso contrário, o Natal cai no risco de se tornar simplesmente comercial.

YES: Considera que a Igreja será capaz de reforçar o espírito de Natal?
PG: Sim…e será sempre o esforço…Ainda este ano a Caminhada de Advento e Natal propostas pela Diocese do Porto para as todas as comunidades paroquiais vai no sentido de reforçar e sensibilizar para a valorização do presépio como imagem de marca da vivência do Natal.

YES: Como vai viver a consoada este ano?
PG: Irei vivê-la como todos os anos…na minha terra, em família, à volta da mesa num espírito fraterno e acolhedor como sempre, rodeado daqueles a quem devo o dom da minha vida e da minha felicidade.

Imagem do presépio da Capela do Nosso Senhor dos Aflitos (Grupo de Jovens ACR Silvares)

YES: Que presente gostaria de receber este Natal?
PG: Já lá vai o tempo em que a uma pergunta semelhante a esta talvez respondesse uma bola de futebol ou carro telecomandado…Neste tempo, e à medida que crescemos, sentimos que felicidade não a encontramos nas coisas mas nas pessoas. Por isso, o presente mais bonito que posso receber é aquele que todos os dias vou recebendo, a amizade, o carinho, a preocupação, a dedicação, a partilha e entrega que tantos fazem de si à minha vida.

YES: Aproxima-se também o início do novo ano, momento para muitos de mudança, de renovada esperança e de formulação de desejos. O que mais anseia para 2019?
PG: Talvez pudesse dizer muita coisa a este respeito…pois muitos são os desejos, as vontades, os propósitos, enfim, mas é importante assentar na realidade…Nesse sentido, desejo continuar a viver disponível para acompanhar quem comigo se cruza no caminho da vida, desejo que todos os corações se libertem da indiferença e da insensibilidade diante dos outros, desejo irradiar a alegria cristã e a força do amor de Deus…

YES: O que mais teme em relação ao futuro?
PG: Esta é uma pergunta que dá que pensar muito. Temo que o futuro traga consigo ainda mais divisões, perda de valores, sentimentos que destruam a sociedade. Temo que o futuro construa uma sociedade dividida e desigual. Contudo, acredito que despende de nós, hoje, a construção do nosso amanhã.

YES: Associe a cada um dos itens que se seguem a(s) palavra(s) que melhor o identificam:
Natal: Nascimento
Consoada: Família
Jesus Cristo: Amor, Ternura , Compaixão
Lousada: Acolhedora, Dinâmica, Solidariedade
Crianças: Simplicidade, Humildade, Mestres da arte de viver
Igreja: Caminho para a Fraternidade e Comunhão