Uma paixão que dura há quase um século

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António Ferreira: a memória viva mais antiga da Banda de Santo Estêvão de Vilela

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António Ferreira

Desde tempos imemoriais que a música faz parte da vida do homem. Festas, romarias, eventos sociais, desportivos e religiosos raramente se realizam sem música.
Quase a completar 160 anos de existência, a Banda de Santo Estêvão de Vilela tem cumprido com sucesso o seu papel, com prémios nacionais e internacionais, sendo uma das mais prestigiadas bandas nacionais.
Ao longo de mais de século e meio, foram muitos os rostos que a fizeram brilhar. Hoje, recordamos o de António Ferreira. Desde sempre seduzido pela Banda, ainda hoje a acompanha sempre que pode. Viajamos no tempo, pelas suas memórias, para conhecer o passado.
Natural de Vilela, onde ainda reside, António Ferreira, conhecido como António Cantador, era um “catraio de 12 anos” quando ganhou gosto pela música e quis aprender. É com satisfação, envolta em nostalgia, que evoca os primeiros tempos: “Sou do tempo do chefe Lopes. Entrei para a banda no ano em que ele entrou”. Recorda com precisão os lugares memoráveis onde realizou os primeiros ensaios: “Nós ensaiávamos nuns pavilhões de uma fábrica, a fábrica da Boa Nova, de Alfredo Ribeiro da Silva. Depois ela ardeu, e viemos ensaiar para casa do irmão dele. Ensaiamos numa casita que tem mais acima, que ainda existe. Na fábrica, fizeram obras, mas nunca mais trabalhou”, recorda. António Lopes foi, na altura, o nome escolhido para tomar conta da banda. “Era a banda da Boa Nova”, lembra. Depois, seguiram-se outros “chefes”, que António Ferreira acompanhou.

Duas paixões, um só caminho

Apesar dos 95 anos completados hoje, dia 1 de novembro, António Ferreira é senhor de uma  memória invejável. Com rigor, recorda os primeiros sons que saíram do seu clarinete. “Eu morava na Pinta e um dos Maias, o mais velho, foi quem me ensinou a música e meteu-me na Banda. Tocava clarinete”.

A música parecia ser, então, a grande paixão da vida de António Ferreira, quando outra paixão maior se atravessou no seu caminho: Leonor, que viria a ser a mulher da sua vida. Ciente de que a vida de músico não se coadunava com a de marido e pai, lançou-lhe um ultimato: “ Tu queres casar, mas digo-te que, se não saíres da banda, eu não te quero”. Esta exigência destinava-se a garantir a harmonia familiar: “Não tem jeito nenhum, sair para noitadas e eu estar sozinha. Não quero, não quero.”

O amor falou mais alto e o músico acabou por ceder. Foi uma decisão dolorosa, que espantou o próprio pai de António, José Ferreira, também ele fascinado pela música. “O quê? Não me digas que vais deixar a banda!”, terão sido estas as palavras de estupefação. O corte com a banda enquanto músico foi definitiva: “O meu pai perguntou-me onde estava o instrumento. Ele pegou nele, na farda e deu tudo à banda. Tinha sido o meu pai que comprou o clarinete, era ele quem mandava nele. Ele tinha paixão e animava-me a estar lá. Fiquei sem nada”, recorda, com tristeza. “Casei, a vida era outra e acabei por nunca mais tocar”, diz.

Fotografia é a recordação maior de um passado feliz

Banda da Boa Nova de Vilela – 1945

Apesar da imposição de Leonor para que abandonasse a banda, a esposa tinha consciência do elo inquebrável que ligava o marido à música. A fotografia da Banda pendurada na sala de jantar da casa de António Ferreira foi uma prenda de Leonor. Olhando saudoso para a velha fotografia do passado, que ostenta com orgulho, aponta o dedo para um rosto: “Eu sou dos mais velhos. Todos os que estão nesta fotografia já morreram”. Recorda-se que a foto do ano 1945 foi tirada para os lados de Famalicão. Nela estão muitos rostos: “Todos estes tocaram comigo. O Carlos Maia era o mais novo, era irmão do que me ensinou. O Maestro era o Pereira de Sousa, da Orquestra Sinfónica Portuguesa”.

As recordações do passado surgem em catadupa: são tantos os rostos, tantas as histórias, tantas as alegrias! “O Ramos de Carvalhosa, que tocava trompa… Este era um barítono importante! Todos eles eram bons”. Os ensaios realizavam-se duas vezes por semana. O dinheiro que arrecadavam nas festas, esse, no fim, era dividido pelos músicos: “Eu gostava muito. Na altura, morava eu em Gondalães, onde conheci a minha mulher, e vinha aqui para os ensaios. Numa ocasião, fizemos uma festa de dois dias no Minho e, logo a seguir, tínhamos a noitada em Sobrosa. Nessa noite, a gente estava a tocar e até o instrumento caía com o sono! O Lopes andava a café, já iam 5 nesse dia. E eu ia para Gondalães e lá dormia pelo caminho. Eram outros tempos!”, conta.

Histórias com humor

Mas as histórias divertidas são muitas. António Ferreira lembra uma caricata: “Um homem tocava muito bem trompete e, numa festa no Minho, chegou-se a hora da atuação e ele não aparecia. Estávamos todos preocupados e fomos apanhá-lo no meio da palha. Convencemo-lo a ir. Estava metido na meda escondido”.

Outra lhe surge à memória, ao olhar para Pereira Sousa, também na fotografia: “Este chefe começou a reger o Guilherme Tel. Julgo que era essa peça. Mas a certo ponto perdeu-se, e o Reinaldo Gomes, com o trompete, lá percebeu e continuou… A Banda não foi abaixo e engatou…Ele dizia: ‘tinha uma batuta que era a minha guia e desapareceu’… Nós lá lhe dissemos que estar com um pau na mão era a mesma coisa… Fomos elogiados pela outra banda, nomeadamente fizeram questão de o manifestar ao senhor do trompete”.

Desde a viagem no autocarro, na antiga empresa Leites, agora Pacense, até às atuações nos tradicionais coretos, foram muitas as emoções vividas. Às vezes, tinham lugar as surpresas, como nos conta António Ferreira, recordando a forma como às vezes interpretavam a peça AIDA: “O Lopes trouxe uns trompetes. Uns punham-se no coreto e saiam seis músicos para outra casa. Nós, no coreto, começávamos a tocar e, de um momento para o outro, surgia o som do outro lado. Surpreendíamos todo o mundo. Era formidável! O povo estava todo a olhar para o coreto e, quando surgia do outro lado a música, ficava todo o mundo de boca aberta”.

“A banda faz ver por todo o lado”

A Banda de Vilela está no coração de António Ferreira, “atualmente tem um chefe que puxa muito pela banda e estes miúdos novos são ‘obrigados’ a tocar e tocam bem. A Banda faz ver por todo o lado. Não é para qualquer banda fazer o que esta faz. Foram, só neste ano, 27 festas”, afirma, com orgulho.

Ao longo das últimas décadas, acompanhou a banda sempre que esta atuava nas proximidades. Lamenta que, no presente, não o possa fazer com tanta regularidade, por já não conduzir. No entanto, quando tem essa possibilidade, delicia-se com a atuação: “Ouvi um rapazinho novo, um solista, Francisco Machado. Agora é quem toca o trompete. Ele dava início à banda e, virado para o povo, sem papel nenhum, punha-se a tocar aquela obra. O povo fica espantado com ele. O meu irmão chegou-me a dizer que até chorou. É esse orgulho que tenho, é uma coisa bonita. Grandes músicos saem da banda”.

De onde vem ‘Cantador’, apelido da família?

As artes de sedução, antigamente, eram muito diferentes. A música contava-se entre as estratégias para agradar às raparigas, como explica António Cantador: “Antigamente, tu tinhas uma rapariga numa determinada terra. Chegavas à beira da banda e pedias a alguns músicos para tocarem para ela. Fazia-se uma festa. Era uma forma de ganhar umas coroas. Lá ia o grupo e o meu pai, José Ferreira, era ele o Cantador”. A este apelido não era alheia a fama de cantador de José Ferreira, que “era sempre ele quem cantava para as raparigas”. Pediam para ele cantar para as seduzir, surpreender, mas também assim era, noutras circunstâncias, como no Natal. “Tenho uma história gira. Um certo dia, um senhor mandou-lhe fazer uma festa e ele próprio quis cantar em vez do meu pai. E começou: ‘Ou tu vais para Coira ou Vou para CaBoila’. A festa foi abaixo: os músicos começaram todos  a rir. De facto, ele era do lugar de Coura e ela era de Cabo Vila”. Foi assim que José ganhou o apelido de Cantador e, por consequência, os filhos e netos.

Naquela altura, era costume juntar um grupo de amigos e andar toda a noite a cantar às raparigas, situação que gerou algumas histórias divertidas: “Ele era muito garoto, e às vezes por onde havia poças de água lá lhes dizia por aqui, por aqui, e lá eles iam e molhavam-se todos. Era bonito”, considera António Ferreira.
O pai é uma figura que António recorda com saudade e a quem reconhece muitas virtudes: “O meu pai era conhecido por José Cantador. Ele dava-se bem com toda a gente. Depois de ele morrer, colocaram aqui a Travessa do Cantador, com o letreiro e tudo. Era um homem pobre aqui na freguesia, mas puseram aqui o nome dele. A minha mulher disse ‘os homens não se medem pelo dinheiro, mas sim pelas pelas ações”.

António Ferreira também fez parte do grupo coral, mas admite que é uma experiência muito diferente: “Já andava no grupo coral quando era músico. Eu cantei na missa solene deste padre novo que tem vindo aqui, há muitos anos”, recorda.

Tradição dos Cantadores é para continuar

Depois de décadas com os Cantadores fora da banda, António Ferreira vê agora o bisneto dar os primeiros passos na música, mas a sua preferência vai para o saxofone. “Tenho gosto que ele esteja a aprender, ganhe paixão pela banda, pelo instrumento e depois dê continuidade”, diz.
A Banda da Boa Nova, agora Banda de Santo Estêvão de Vilela, continua a “dar nome à freguesia”, como afirma António Ferreira, e a ser motivo de orgulho para todos.

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