A ressaca

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Esta semana encontra-se indubitavelmente marcada pela “ressaca” das eleições legislativas. A Assembleia da República vai passar a contar com a representação de nove partidos, cujo desempenho eleitoral importa analisar.

Desde logo, o PS, ainda que sem maioria absoluta foi o mais votado, verificando-se que foi o único partido a beneficiar da coligação mais ou menos mitigada (dependendo da época do ano) que suportou o governo que agora irá terminar funções. Face às eleições de 2015, o Bloco de Esquerda perdeu milhares de votos, mantendo o número de deputados e a CDU que para além de ainda ter perdido mais votos, perdeu deputados.

Desempenho positivo tiveram também os partidos mais pequenos, desde logo o PAN que passou de um para quatro deputados, o Livre, a Iniciativa Liberal e o Chega que conseguiram, cada um deles, eleger o seu primeiro deputado.

O grande derrotado parece ter sido o CDS-PP, cujo resultado levou à demissão da sua líder. Penalizado com uma certa viragem à esquerda do eleitorado e com o surgimento de partidos como a Iniciativa Liberal, o Chega e até o Aliança, deixou de conseguir canalizar em si os votos de direita, nomeadamente nos círculos eleitorais mais urbanos, que são os que mais deputados elegem, com reflexos imediatos na sua representatividade.

Por último, e talvez mais difícil de analisar, fica o desempenho do PSD. É certo que deixou de ser o partido mais votado, perdeu votos e elegeu menos deputados mas fez reconhecidamente uma boa campanha eleitoral, com um desempenho muito positivo nos sucessivos debates eleitorais. Tendo obtido um resultado aquém daquilo que os seus militantes e simpatizantes gostariam, também não foi a hecatombe que muitos preconizavam.

Trata-se de uma situação que se enquadra claramente no pensamento do filósofo espanhol José Ortega y Gasset. Para ele, o “O homem é o homem e a sua circunstância”, devendo este ter consciência da circunstância que o rodeia, relacionar-se com ela e por fim superá-la.

Ora, talvez tenha sido isso que faltou à liderança do PSD nestas eleições: uma maior capacidade de compreender o partido e de se relacionar com as suas bases, fazendo assim chegar a mensagem aos portugueses e superar as suas naturais adversidades.

Por outro lado, diz-nos o mesmo filósofo que “todas as coisas estão em permanente processo de mudança. Por isso a vida, do início ao fim, é uma aprendizagem” e que “para que o funcionamento da existência se estabeleça é indispensável que o indivíduo interaja com a sociedade”, concluindo que se o homem não conseguir salvar a sua circunstância, não se salva a si próprio.

Em breve veremos se o partido soube crescer com esta aprendizagem e se Rui Rio terá ou não capacidade para se salvar a si e à sua circunstância.

Situação diferente passou-se no concelho de Paredes, onde o PSD apesar de não ter sido o partido mais votado conseguiu o quarto melhor resultado do distrito do Porto. Para além disso foi o partido mais votado em nove das dezoito freguesias, vencendo em três das quatro cidades.

Atendendo à situação política nacional reconhecidamente adversa ao PSD, obter em Paredes um resultado melhor do que o obtido nas legislativas de 2009, a cerca de um ponto percentual do partido mais votado, é um sinal de que o PSD tem um longo caminho a percorrer, mas que sem dúvida avança na direção certa.

Pedro Silva

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