“Foi como acordar de uma longa noite de pesadelos: o fim da...

“Foi como acordar de uma longa noite de pesadelos: o fim da guerra colonial, o fim da repressão, o libertarmo-nos da canga do fascismo”

MEMÓRIAS DA REVOLUÇÃO DE ABRIL - Professor José Calçada

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Na semana em que se completam 45 anos da Revolução de Abril, fomos entrevistar uma figura que viveu e lutou pelos ideais de Abril, acompanhou as peripécias, os avanços e recuos de uma revolução que terminou com uma ditadura que perdurou durante 48 anos.
Apesar de não ter nascido na região do Vale do Sousa, José Calçada mantém uma memória viva desses tempos, das ideias e dos valores de uma Revolução que teve avanços e recuos mas que se mantém viva e continua a ser comemorado de lés-a-lés do país, com mais ou menos pompa.
José Calçada viveu vários anos em Lousada, depois de ter vindo de Moçambique, apenas em Dezembro de 1974. Presentemente reside em Paredes e no seu curriculum tem uma vasta experiência política, tendo sido deputado na Assembleia da República.
Foi professor do ensino secundário entre 1970 e 1980; foi orientador pedagógico de 1980 a 1982; inspector pedagógico do Ministério da Educação durante vinte e nove anos, desde 1980 até se aposentar, em 2009.

 

YN: Recorda-se do 25 de Abril? Onde estava nessa altura?
José Calçada: Claro que me recordo do “25 de Abril”. Já tinha quase 28 anos e estava, enquanto alferes miliciano, a cumprir o serviço militar obrigatório em Mocímboa do Rovuma (Moçambique), junto à fronteira com a Tanzânia. Era a Guerra Colonial, que é bom não esquecer. Durante a guerra, que durou de 1961 até 1974, na Guiné, em Angola e em Moçambique, morreram mais de 8000 militares portugueses (e muitíssimos mais guineenses, angolanos e moçambicanos). Foi um preço muito pesado a pagar pelo povo português e das ex-colónias no período de agonia do regime fascista de Salazar e Caetano.

YN: A Revolução foi percetível a todos os portugueses, isto é, as pessoas tiveram a noção de imediato do que estava a acontecer? Qual foi a reação das pessoas e da opinião público aos acontecimentos à data?
JC: Antes de tudo, as pessoas sentiram que eram as portas da liberdade que se estavam a abrir, eram “As Portas que Abril Abriu”, como com força e comoção bem expressa o famoso poema de José Carlos Ary dos Santos [procurar na net]. Foi como acordar de uma longa noite de pesadelos: o fim da guerra colonial, o fim da repressão, o libertarmo-nos da canga do fascismo! Julgo que toda a gente compreendeu isto, de modos diferentes, sem dúvida, com expectativas diversas, sem dúvida, mas todos compreenderam o essencial. Não é por acaso que, apesar dos apelos dos militares que desencadearam a revolução para que as pessoas se conservassem em casa, o nosso povo logo nas primeiras horas encheu as ruas e as praças do nosso país, para lhes afirmar que o país estava com eles, para lhes afirmar que esta era a nossa revolução e nunca apenas a dos militares. E veja-se: seis dias depois do “25 de Abril”, e só em Lisboa, mais de um milhão de pessoas festejou nas ruas o primeiro “1.º de Maio” em liberdade!

YN: Como é que a região do Vale do Sousa viveu os acontecimentos de Abril. Tem ideia se aquando do anúncio da Revolução se houve tumultos na região do Vale do Sousa? Como é que a classe politica e as forças ordem que estavam na região viveram e assimilaram esses momentos?
JC: Eu não vivia então no Vale do Sousa, mas, tanto quanto julgo saber, as coisas não se passaram de modo diferente de no resto do país, a uma escala diferente da de Lisboa, ou da do Porto, como é natural. Nunca ouvi falar de tumultos, por exemplo, mas não é difícil imaginar que, como na generalidade do país, também aqui no Vale do Sousa as autoridades emanadas do fascismo, bem como as forças-da-ordem, GNR e etc, não se tenham sentido confortáveis com as notícias da revolução, o que, naturalmente, terá dado origem a algumas resistências ou a alguns equívocos, e estou a usar palavras suaves. Mas a revolução funcionou como uma maré a que ninguém resistiu, assistindo-se até a muitas conversões oportunistas à democracia. Os alfaiates foram inundados de trabalho com os vira-casacas!

YN: Nos meses ou semanas que antecederam a Revolução de Abril havia sinais que, de alguma forma, pudessem levar as pessoas a antever o que veio a suceder? Antes de 1974, como é que as pessoas encaravam o regime de Salazar e mais tarde o governo de Marcelo Caetano?
JC: Claro que poucos tinham conhecimento do desencadear das operações militares, trata-se de uma circunstância em que o segredo é fundamental. Mas era cada dia mais evidente que as coisas não estavam a correr bem para o regime fascista de Salazar-e-Caetano. A maior e mais trágica evidência disso mesmo era o desenrolar da guerra colonial, na Guiné, em Angola e em Moçambique, que o regime não conseguia ocultar. Os primeiros mortos portugueses foram largamente publicitados pelo regime e incensados como heróis, com medalhas atribuídas às viúvas ou aos pais nos dias 10 de Junho no Terreiro do Paço. Mas, à medida que a guerra prosseguia, sem fim à vista, com o recrutamento cada vez maior de soldados, as mortes deixaram de ser anunciadas ou, quando o eram, eram-no nos cantos inferiores das páginas interiores dos jornais. Não se pode esquecer que todos os órgãos de comunicação estavam sujeitos a censura prévia, jornais, rádio e televisão, pelo que só publicavam o que o regime permitia. A guerra colonial provocava um desgaste brutal no nosso país, nos soldados que morriam e nos meios financeiros que iam faltando. A situação económica e social ia-se agravando e, assim, e também pela guerra, a emigração para a Europa, principalmente para França, era gigantesca, e muita dela ilegal, isto é, a-salto. Basta pensarmos que houve uma época em que, depois de Lisboa, a cidade com maior número de habitantes portugueses era… Paris-e-arredores! Isto mostra bem, objectivamente, como as pessoas perspectivavam a sua vida e o seu futuro no regime de Salazar-e-Caetano! Por outro lado, embora ilegais e brutalmente reprimidas, as greves sucediam-se, quer as dos trabalhadores das indústrias da zona do Barreiro, a sul do Tejo, quer as dos trabalhadores rurais do Alentejo. Não eram muito espectaculares nem de longo período, mas debilitavam e instabilizavam sistematicamente o regime. Mesmo noutros sectores, as greves dos estudantes na Universidade de Lisboa, em 1962, e na Universidade de Coimbra, em 1969, abalaram profundamente o fascismo. (A talhe de foice, posso dizer-vos que comemorei no passado dia 17 de Abril o 50.º aniversário de eu próprio ter entrado em greve na Universidade de Coimbra, com a cidade cercada pela polícia-de-choque e com jipes com frentes de arame farpado atrás dos estudantes, enquanto outros, como sucedeu comigo, espalhavam pioneses-de-quatro-pontas em algumas ruas, de modo a furar os pneus dos carros da polícia. É que os pioneses-de-quatro-pontas, espalhados, ficam sempre com uma ponta, a que é útil, virada para cima…). E, também em 1969, a 22 de Junho — estamos também a caminho do 50.º aniversário –, os estudantes de Coimbra em greve aproveitaram a final da Taça de Portugal, entre o Benfica e a Académica, para denunciarem o fascismo, a guerra e a situação na Universidade. É que o “25 de Abril” não caiu do céu aos trambolhões no dia 25 de Abril: foi, isso sim, a foz de um grande rio, com milhares de afluentes, que foi correndo e desgastando ao longo de muitos anos, com muito trabalho quotidiano e feito de pequenas coisas, e com muitos heróis anónimos, ou quase, que ninguém conhece, ou poucos conhecem. E com muitos heróis verdadeiros — pelo que recomendo que, a este respeito, visitem a Fortaleza de Peniche, antiga prisão política do fascismo, agora transformada em Museu da Resistência. É importante que o façam. A memória das coisas é fundamental: alguém escreveu que “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo” (George Santayana, 1863/1952).

Mocímboa do Rovuma (Cabo Delgado, Moçambique), na Guerra Colonial, em 1973

YN: Nas colónias adensavam-se, também, as situações de descontentamento face ao regime de Salazar. Acha que acabaram também por contribuir para a queda do regime?
JC: Na questão das colónias, o problema tinha um nome: guerra. 13 anos de guerra é muito tempo, mais de 8000 mortos (só os portugueses, para além dos guerrilheiros) são muitos mortos. A guerra era a questão essencial, tudo o resto era secundário.

YN: Como é que a comunicação social, à data, retratava estas situações? Considera que a opinião pública e a população de uma forma geral estavam devidamente informadas? Na sua opinião que fatores contribuíram para que Portugal estivesse tanto tempo sobre uma regime ditatorial? Que condições contribuíram para perpetuar Salazar tanto tempo no poder?
JC: A comunicação social, se assim lhe podemos chamar, os jornais, a rádio e a televisão, pura e simplesmente não retratavam essas situações em nenhuma circunstância. Não esquecer que estavam sujeitos a um sistema rígido de censura prévia, só publicavam o que o regime e o governo autorizavam. Digamos que existiam dois países em Portugal: por um lado, o Portugal a que a comunicação social se referia; por outro, o Portugal real, o Portugal das pessoas concretas, que trabalhavam, que sofriam, que lutavam, que emigravam, que morriam na guerra. E, para além da censura, o silêncio era obtido pela polícia política, a PIDE/DGS, pelas prisões políticas e mesmo por campos de concentração (houve dois, o do Tarrafal, em Cabo Verde, e o de S. Nicolau, em Angola). Era mais do que silêncio: era o silêncio-dos-cemitérios. Neste quadro, não se pode dizer que existisse “opinião pública”; existia, se assim lhe podemos chamar, “opinião publicada”, e esta limitava-se a reflectir as “opiniões” (!) favoráveis ao regime. Ainda neste quadro, a população em geral carecia de qualquer informação séria e credível. Ao mesmo tempo, o regime sempre procurou formatar a cabeça das pessoas ou pela ignorância e pelo medo, ou através dos programas escolares. Ler hoje os livros pelos quais eu estudei no ensino primário, nos finais da década de 1950, dá-nos lições esclarecedoras sobre o Portugal salazarista. A nossa História era apenas de heróis-e-santos, o colonialismo era a acção civilizadora, com uma pena numa das mãos e com uma espada na outra (nunca ficou claro para que servia a espada…). “Portugal não é um país pequeno”, dizia um mapa que estava pendurado na escola, mostrando as colónias sobrepostas a um mapa da Europa, fazendo com que o nosso país tivesse início no Cabo da Roca e terminasse creio que pelo meio da Alemanha. [Sugiro que comprem esses livros de leitura e de História, estão novamente à venda por aí, em edições acessíveis, e ensinam-nos (hoje) muito mais do que (então) pretendiam ensinar-nos]. Lendo tudo o que atrás explicitei, talvez estejam aí algumas das razões que conduziram a ditadura salazarista-caetanista a durar 48 longos anos, potenciada pelo isolamento geográfico no extremo ocidental da Europa. A geografia não explica tudo, mas ajuda a compreender; e podemos dizer que a Guerra Civil de Espanha, de 1936 a 1939, agravou esse isolamento. Mas atenção: esse isolamento não impediu que Salazar apoiasse com matérias primas e alimentos os fascistas espanhóis de Francisco Franco, que enviasse um grupo de combatentes, os “Viriatos”, para lutarem contra os legalistas republicanos e ainda que, vergonhosamente, devolvesse a Espanha, para aí serem torturados e fuzilados, muitos republicanos em fuga para o nosso país.

YN: Como é que a comunidade internacional olhava para este estado de coisas?
JC: É preciso situar as coisas a nível internacional, porque, também por aí, isso nos ajuda a compreender a duração do regime fascista em Portugal. Terminada a 2.ª Guerra Mundial, em 1945, entra-se quase imediatamente num período a que se convencionou chamar de “Guerra Fria”, com um confronto entre um bloco chefiado pelos Estados Unidos e um outro encabeçado pela então União Soviética. O regime de Salazar, além de anti-democrático, colonialista, ditatorial, repressivo, afirmava-se também como anti-comunista. Este último elemento fazia com que as chamadas potências ocidentais, e nomeadamente os Estados Unidos, olhassem para a ditadura salazarista com uma grande e mal disfarçada simpatia. O Salazar era um ditador, oprimia o seu povo, é verdade — mas, que diabo, era anti-comunista; o Salazar era colonialista, oprimia e explorava os povos das colónias, é verdade — mas, que diabo, era anti-comunista (e, aqui, até permitia que as multinacionais ocidentais os explorassem também, no petróleo, nos diamantes, etc…). Em resumo: o Salazar foi durando, até que o nosso povo lhe não permitiu continuar a durar.

Universidade de Coimbra, em 1963/64

YN: Considera que Portugal estava preparada para o 25 de Abril?
JC: Colocada a questão como a coloca, é óbvio que Portugal estava mais do que preparado para o “25 de Abril”. E se o “25 de Abril” pecou por alguma coisa, foi por ter vindo tão tarde. Muitos e muitos portugueses lutaram por um 25-de-Abril, sofreram, foram torturados, estiveram nas prisões fascistas, e, acreditando sempre no futuro, morreram sem nunca terem visto esse dia de libertação. Pela parte que me toca, posso dizer que, fora das questões de ordem estritamente intimista, o “25 de Abril” foi o melhor que me aconteceu na vida, e já estou com 72 anos! Atrevo-me até a imaginar que, no âmbito daqueles que amo e no daqueles que tenho a sorte de amarem este que agora aqui está a falar, mesmo essa essencial componente da minha vida seria bem diferente sem o “25 de Abril”. Mas falando de Portugal, repito: Portugal estava mais do que preparado para o “25 de Abril”. E esta pergunta é apenas retórica: na verdade, nenhum povo está “preparado” para a servidão, todos os povos estão “preparados” para a liberdade!

YN: Como encara os avanços e recuos da Revolução de Abril, com as sucessivas eleições e quedas de Governos? Considera que os ideais de Abril e os princípios que lhe estão associados foram cumpridos ou estamos longe de o conseguir? Vivemos num país mais igualitário, justo e coeso do ponto de vista territorial, do desenvolvimento, da qualidade de vidas e das oportunidades? Na sua ótica o que é que mudou depois do 25 de Abril? A Região do Vale do Sousa ganhou com a Revolução de Abril? Podemos dizer que está mais desenvolvida?
JC: Os avanços e recuos da Revolução de Abril são perfeitamente naturais, como o são em qualquer processo histórico. Desde logo porque os interesses em jogo, os interesses-de-classe em jogo, estão muito longe de ser consensuais. E, sem um referencial-de-classe, o que é isso de “avanços” e “recuos”? É que, quase sempre, os “avanços” para uns são por outros considerados “recuos”. Quando do eclodir da Revolução de Abril, os militares, sob a forma do M. F. A., Movimento das Forças Armadas, definiram desde logo três grandes eixos para o futuro imediato do país, os chamados “3 D”s: Democratizar, Descolonizar, Desenvolver. Digamos, em traços muito gerais, que o D de Descolonizar foi plenamente conseguido, as nossas ex-colónias são hoje países independentes; que o D de Democratizar ainda tem um longo caminho para percorrer, porque a democracia é muito mais do que um conjunto de formalismos; e que o D de Desenvolver também ainda está muito longe de se situar num plano aceitável. Aliás, se a democracia não pode resumir-se a um conceito abstracto e formal, então deve surgir profundamente associada ao desenvolvimento. Hoje, o país está infinitamente melhor do que antes do “25 de Abril” — mas o “25 de Abril” encontra-se hoje prisioneiro das imposições da moeda única, sob a forma dos interesses dos “Grandes Países” da União Europeia, isto é, da Alemanha e, por arrastamento, da França. A questão não é portanto sabermos se estamos ou não melhores do que na ditadura salazarista, é uma questão que nem sequer se coloca. O “25 de Abril”, no coração do Serviço Nacional de Saúde, colocou Portugal entre os melhores países do mundo no que se refere à taxa de mortalidade infantil; temos hoje 40 vezes mais alunos no ensino secundário do que o que tínhamos há quarenta anos atrás. Isto é fantástico e é um erro terrível não o termos na devida conta! Mas este mesmo país, o nosso, possui quase 25% da população no limiar da pobreza, ou seja, temos dois milhões e meio de pobres num total de dez milhões de habitantes; e este mesmo país, o nosso, está quase reduzido a uma faixa litoral “desenvolvida” (!) e a um interior, 2/3 do território, progressivamente abandonado e desertificado, onde se fecharam escolas, centros de saúde, estações de caminho de ferro, maternidades, postos de correio, agências bancárias, e atravessado por autoestradas (das melhores da Europa!) que agravam o seu esvaziamento. Foi para isto que se fez o “25 de Abril”? — perguntam as pessoas. E esta pergunta deve ser para nós não um factor de desânimo, mas antes a constatação de que o “25 de Abril” se conserva como uma referência, como aquela data com que muitos ainda sonham para a construção da sua vida futura. Não foi para isto que se fez o “25 de Abril”!, reclamam as pessoas. Lousada e Paredes, ou a mais vasta região do Vale do Sousa, atenta a descrição que atrás deixei, apresentam características mistas, de interior-litoral ou de litoral-interior, oscilando entre uma e outra, conforme a nossa perspectiva. Saibamos ouvir as pessoas e agir em conformidade, assumindo sempre com elas compromissos e não promessas, e prestando-lhes contas! Os nossos governos não podem continuar prisioneiros de uma lógica que o nosso povo e os construtores de Abril não merecem!

Lisboa em 1969

YN: Na sua opinião, considera que os jovens têm uma perceção do que é que foi a Revolução de Abril? Conhecem os seus contornos? Defende que é fundamental que este evento continue a ser abordado nas escolas e estabelecimentos de ensino?
JC: Tenho muita dificuldade em responder a esta pergunta. Não estou seguro de que os nossos jovens possuam uma percepção correcta do que foi o “25 de Abril” e da sua importância no âmbito da história contemporânea de Portugal. Na generalidade, falar aos nossos jovens da PIDE, da censura, das prisões políticas, da guerra colonial — parece-me que é como falar-lhes de algo tão longínquo como o rei D. João I ou a batalha de Alfarrobeira! Olho para os manuais escolares e confesso que fico preocupado. E lá vamos nós falar da desgraçada da escola, à qual facilmente se atribuem todos os pecados — como se, antes e depois dela, não existissem outras instituições e, particularmente, a família. Os pais não podem despejar cada dia os seus filhos na escola e sentirem-se aliviados com o alijar dessa carga. Se a família não estiver em condições de assumir o seu papel educativo, é quase impossível que a escola o assuma por ela. À escola não se pode pedir tudo! Aqui há cerca de quatro ou cinco anos, fui convidado pela então Escola Preparatória de Lousada, a pretexto de Abril, a falar aos alunos, e a alguns professores, sobre a guerra colonial. Trata-se de uma matéria muito sensível, e particularmente sensível para jovens daquela faixa etária. A minha apresentação julgo até que não correu mal, e que lhes agradou, como ficou expresso nas perguntas-e-respostas da parte final. Como é que lhes fiz ver a tragédia e o absurdo dos 8000 mortos (portugueses) na guerra colonial? Pois bem: descobri que a escola deles me servia como unidade de referência. Entre alunos, professores e funcionários, a escola tinha por acaso mil pessoas — e eles compreenderam de imediato o significado de terem sido mortos na guerra o equivalente a oito vezes uma escola como a deles, oito vezes todos os alunos, oito vezes todos os professores, oito vezes todos os funcionários! Sabemos que uma noção rigorosa do tempo em História só se atinge por volta dos quinze anos de idade. Então como é que havemos de lá chegar?… Em relação ao “25 de Abril”, o que me parece mais relevante, para os jovens de hoje, é que na sua vida não possam dar como adquiridos certos “bens” que apenas Abril permitiu, e que tenham consciência de que esses “bens” foram duramente conquistados com os sacrifícios de gerações que os antecederam, e que, também por isso, deverão ser cuidadosamente preservados. Tudo o que se conquista se pode perder, tudo o que se perde se pode reconquistar. Mais ainda: quando se luta, nem sempre se ganha; quando não se luta, perde-se sempre. É isto que é a História, afinal.

YN: Define-se como um homem de Abril? Considera que os políticos atuais continuam a dignificar e a cumprir esses ideais?
JC: Não quero fugir à sua questão. Assim, não sei se sou um homem de Abril. Afinal, limitei-me na minha vida a fazer apenas a minha parte, de modo a que não possa envergonhar-me da pessoa que vejo no espelho quando de manhã faço a barba; mas que sou um homem com Abril, isso sem quaisquer dúvidas. E isso me basta, e me deixa tranquilo. Muitos dos actuais políticos não podem dizer o mesmo, e alguns até já perderam a vergonha por não o poderem dizer. Mas a História ainda não acabou!

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