“Lousada é exemplo de boas práticas e é ativa culturalmente”

“Lousada é exemplo de boas práticas e é ativa culturalmente”

Entrevista - Ana Lúcia Magalhães, atriz natural de Caíde de Rei - Lousada

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Ana Lúcia Magalhães, atriz natural de Caíde de Rei, a residir em Queluz, Lisboa, esteve recentemente em Lousada, no encerramento de mais uma edição do Folia – Festival Internacional das Artes do Espetáculo, fazendo parte do elenco da peça ”BOCAge”.
A presença da atriz foi aproveitada para conferirmos com a atriz lousadense alguns assuntos relacionados não apenas com a peça que interpretou e encerrou o Folia, mas, também, para esmiuçar um pouco sobre o seu trabalho enquanto atriz, o teatro que é feito na região e no pais assim como os desafios e o futuro desta arte.

Yes Notícias: Como é que surgiu a opção pelo teatro para a Ana Lúcia Magalhães? Era a área que sempre quis seguir e contou com o apoio da família?
Ana Lúcia Magalhães: Havia várias opções que considerava depois de ter acabado o ensino secundário. Em todas elas, eu sabia que me conseguiria colocar, estudar, e profissionalizar-me. Estava muito indecisa, então preenchi a minha candidatura ao ensino superior com 5 opções diferentes, em faculdades diferentes. Na altura lembro-me de pensar que ia deixar que o acaso decidisse por mim.
Quando partilhei isto com alguns dos professores que sempre me foram muito queridos, todos tiveram a mesma reação: “mas então e o teatro?”. Não é que não fosse algo em que eu já tivesse pensado antes, na verdade, eu já tinha tido vontade de concorrer à ACE quando terminei o 9.º ano. Desde pequena que cantava e representava e era, de facto, a área que eu sempre quis seguir. Mas a insegurança da carreira, a incerteza de trabalho, via muitos exemplos de actores que ia conhecendo que diziam ser muito difícil ter estabilidade, então, inconscientemente, o que não me fazia optar pelo teatro, era este pensamento que estava sempre na minha cabeça. Só quando comecei a ponderar o que eu queria que fosse a minha vida, é que me apercebi que não era de estabilidade que eu andava à procura, mas de um constante desafio, de grandes emoções, e que só me sentiria completa fazendo teatro ou música.
Todas as decisões que eu possa tomar são apoiadas pela minha família. Tenho uns pais maravilhosos que sempre me respeitaram e me deixaram crescer à minha vontade, dentro dos valores que eles defendem – e ainda bem que são bons valores. Para eles foi a ordem natural das coisas, eles sabiam que mais tarde ou mais cedo iria acabar por acontecer eu entregar-me ao teatro. Ficaram ambos muito felizes por eu ter tomado esta decisão.

YN: Sendo de Lousada, suponho que o seu percurso escolar inicial tenha sido feito no concelho. Fez alguma formação ou cursos antes de começar a representar?
ALM: Estudei na Escola Secundária de Lousada de 2006 a 2009. Nesta altura, era uma adolescente e sabemos que é a fase em que começamos a formar a nossa personalidade. Olhando para trás, para esses três anos, vejo que tive uma grande sorte por ter encontrado pessoas tão importantes, figuras que me marcaram, que me serviram de exemplo e me deram muitos conselhos sábios. Na altura estava sedenta de conhecimento e em conversa com um professor disse-lhe que queria muito fazer teatro. Foi aí que conheci a figura mais marcante para mim, a professora Capitolina. Há umas dezenas de anos que a Cali (gosto de a tratar assim) está em Lousada a espalhar conhecimento, cultura e arte; é uma grande mulher e uma grande amiga. Entrei para o grupo da Capitolina, a Nova Oficina de Teatro e Coral de Lousada, e com ela o nosso grupo da altura fez tanto teatro, tanta música, tantos eventos. Foram anos muito felizes, que me formaram e me deram a certeza de que no teatro estava feliz. Quando partilhei com a Cali que tinha concorrido à ESMAE, ficou tão feliz por mim que me ajudou a preparar para as provas de acesso. Entrei para a escola com uma nota incrível, e sei que grande parte da responsabilidade foi dela.

YN: Qual foi a primeira peça que integrou e como descreve a experiência de se sentir em palco?
ALM: É difícil precisar o primeiro espectáculo que fiz tendo em conta que já atuava no Auditório Municipal com a Nova Oficina desde os 15 ou 16. Apesar de ser teatro amador, o significado de estar em palco tinha o mesmo peso para mim. Já na faculdade fiz imensos projetos, grandes produções, peças mais clássicas, performances. Em ambiente de estudo estamos a formar-nos, a perceber todas as possibilidades. Estar em palco é ser responsável por apresentar uma história, ou alguém, ou algo, que nos transcende, mas que se humaniza.

YN: Que significado tem para si o teatro?
ALM: O teatro é um ponto de encontro, é uma reunião, porque é sempre necessário um recetor e um emissor para acontecer. É como se já existisse e precisasse dos corpos, das vozes para poder ser visto e ouvido. Gosto de ser um desses corpos usados para fazer passar esta arte.
O teatro tem-se desenvolvido, adaptando às novas vivências. Tínhamos medo que morresse, que mais ninguém quisesse saber dele, mas, acredito que ainda vai viver muito tempo, seja o teatro como já conhecemos ou não convencional. O convencional deixa de ser o único momento de nos sentirmos em palco, ficamos a perceber que o teatro respira além das cortinas e que vive em nós. O teatro para mim, significa toda a vida.

YN: Para alguém que vem de Lousada, uma pequena vila, como foi dar o salto para Lisboa? Atualmente sente-se mais lousadense ou lisboeta?
ALM: Foi tudo bastante natural, desenrolou-se como um livro já escrito. Aos 18 anos, quando entrei na ESMAE, mudei-me para o Porto e fiquei entregue a mim própria. Foi uma sensação muito boa. Há pessoas que gostam mais da tranquilidade e da estabilidade, eu sou o oposto. As situações de risco e as novas oportunidades aliciam-me. Depois de viver três anos no Porto, terminei a minha licenciatura, e soube por uma amiga que estavam a fazer um casting para uma companhia em Beja para um ator e uma atriz para um estágio profissional com remuneração por nove meses. Nem pensei muito, inscrevi-me e em menos de uma semana estava a fazer o casting em Beja. Tive uma resposta positiva pouco tempo depois, e foi fazer as malas e partir. Estava a gostar do Porto, mas era maior a vontade de conhecer outros sítios.
Após o tempo de trabalho em Beja, ainda permaneci mais um ou dois meses só para perceber qual seria o próximo passo. Não havia dúvidas na minha cabeça, teria de ser Lisboa.
A adaptação não poderia ser melhor, não estava inteiramente sozinha, porque tinha conhecido o meu namorado em Beja, que também era ator e de Lisboa, então, tive sempre o apoio dele, e apresentou-me a algumas pessoas que ele conhecia. Como o nosso meio não é assim tão grande, havia pessoas com quem já me tinha cruzado no Porto, e por esse país fora. Os primeiros quatro meses foram difíceis, porque ninguém conhecia o meu trabalho, então não estava a conseguir entrar no meio. Havia despesas para pagar, então já estava a fazer entrevistas de trabalho. Cheguei a trabalhar num call center, até surgir a oportunidade de entrar numa companhia, na qual ainda estou até hoje, a bYfurcação, e comecei por fazer essencialmente teatro para a infância.
Na verdade basta começar, fazer o primeiro espectáculo num local, e se nos correr bem, vão chegar mais solicitações. Aconteceu isso comigo e hoje em dia trabalho com muitas companhias diferentes, com muita gente, e sou muito feliz. Nada implica que haja fases com menos trabalho, mas aí, tenho a sorte de me conseguir orientar. Trabalhei num call center, fui empregada de mesa, fui Uber, fui rececionista num hotel, enfim. Mas não deixei de ser atriz.
Sou caidense de raiz, sou Lousadense como jovem, na minha forma e no conhecimento de mim, sou Lisboeta como mulher, e sou do mundo todo com a minha arte.

YN: Existem mais oportunidades de trabalho em Lisboa? Aceitaria trabalhar noutra zona do país?
ALM: Estando a viver em Lisboa, o mais natural tem sido trabalhar nesta zona. Mas aceitaria de bom grado se me chegasse uma proposta de que gostasse numa outra parte do país.

YN: Contracenou com a famosa Rita Ribeiro, no encerramento do festival Folia, no espetáculo “BOCAge”. Como é estar ao lado de grandes nomes do teatro?
ALM: Esta peça, escrita pela Sandra José, é um ponto de encontro de poemas de Bocage ditos pela boca vermelha de três mulheres em fases diferentes da vida. As três falam de Bocage como sendo “o mais honesto homem para se amar”. É uma homenagem a um grande poeta, à mulher, e às palavras que merecem ser soltas sem qualquer censura.
Foi a primeira vez, em Lousada. Foi a primeira produção da Magia Abrangente, a produtora da Rita, que estreou este espectáculo o ano passado em Lisboa e que agora anda em digressão pelo país todo.
Para além do BOCAge, tenho também o gosto de fazer parte da segunda produção da Magia Abrangente, O REVIRALHO. É uma revista que estreou no dia 27 de abril no Casino Estoril e que também está disponível para digressão. Ter a oportunidade de estar em palco com a Rita Ribeiro, a Alexandra Pato, o João Ascenso, o Mário Abel, a Maria Ribeiro, o Carlos Gonçalves, com a produção de pessoas maravilhosas como o Alexandre Tavares, o Miro Silveira, entre muitos outros, é incrível e todos os dias me sinto grata por ter a oportunidade de estar a trabalhar com pessoas que além de bons colegas, são bons amigos.

YN: Foi a primeira vez que a Ana Lúcia Magalhães apresentou uma peça para o público do Folia?
ALM: Sim. Foi a primeira vez que participo no FOLIA como intérprete, nas outras edições só participei como público e adoro este festival.

YN: O que é que conhece deste festival? Considera que o Folia é já uma referência dentro daquilo que é a agenda cultural e dos certames dedicados às artes do espetáculo a nível nacional?
ALM: Sem dúvida, o FOLIA é já uma referência nacional, assim como a Jangada. Vou falando com colegas que conhecem a companhia e o festival. Muitos deles conhecem e já estiveram no Folia a atuar. Acho que têm feito um trabalho incrível, e na minha opinião, fundamental para esta zona. Para além de gerar trabalho entre os artistas, oferece cultura às pessoas. E quanto mais cultura tem um povo, mais rico ele é.

YN: Considera que o teatro é um veículo que pode potenciar o desenvolvimento cultural e económico das localidades e até das regiões?
ALM: A partir do teatro podemos chegar a imensos assuntos, juntar pessoas diferentes, fazer rir e chorar, criar revoltas e iniciativas, apaziguar e neutralizar conflitos, mostrar vários pontos de vista e outros mundos. A ver teatro podemos ir à China sem sair do nosso lugar, e sentir, cheirar, experimentar novas emoções. Isto vai revelar-se num povo mais atento, mais feliz, porque teve o seu momento de cultura, de entretenimento, um momento social, e que vai levar a vida de uma forma mais positiva. Uma região com uma forte programação cultural, cria uma população mais dinâmica e chama a atenção a outras regiões que irão potenciar o seu desenvolvimento.

YN: Na sua opinião, o teatro enquanto veículo de formação e desenvolvimento tem sido devidamente apoiado pelos nossos políticos e agentes culturais?
ALM: Sem me alongar nas questões políticas, considero que, neste caso, o essencial está à vista. Precisamos de mais financiamento, a percentagem do PIB para a cultura está abaixo de 1%, o financiamento pela DGArtes tem posto de fora agentes culturais com grande história e tem deixado zonas do país sem financiamento para a cultura, há escolas públicas que têm sido esquecidas, apesar dos alunos e os professores continuarem na luta, falo do conservatório de música, o conservatório de dança, mas pior tem sido o que tenho visto na minha antiga escola, a ESMAE, um dos braços do IPP que neste momento tem salas completamente inundadas, salários que não chegam, disciplinas que terão de ficar em stand-by por ausência de financiamento para adereços, figurinos, ou mesmo, para pagar aos profissionais que vêm dar formação.
Se tem sido devidamente apoiado? Não. Portugal, no panorama europeu, é dos que menos gasta em cultura.
Disse que não me alongava, mas resta apenas deixar aqui que apesar desta falta de crédito, temos todos de dar valor aos artistas que se unem e lutam todos os dias para conseguir viver das migalhas que lhes dão.

YN: Considera que a Câmara de Lousada é um exemplo de boas práticas naquilo que é a promoção cultural e dos seus atores e agentes culturais?
ALM: Por eventos como o FOLIA, as noites acústicas, os festivais tradicionais, a oferta cultural de teatro nas escolas, entre outros, temos a prova em como Lousada é exemplo de boas práticas e que é ativa culturalmente. E espero que assim se mantenha durante muitos anos.

YN: Na sua opinião, o Foliaziznho, certame direcionado para os mais novos, promovido pela Jangada Teatro, é um bom exemplo do que se faz na formação?
ALM: O Foliazinho é quase um evento necessário, parece que só fazia sentido que acontecesse. É muito importante para as crianças e para os jovens, porque para além da formação, cria hábitos culturais que são essenciais nestas idades.

YN: Deveria ser replicado a outros concelhos?
ALM: Com certeza que sim. Quem me dera que fosse um exemplo para todos os concelhos. Felizmente estou num concelho, Sintra, que está a ajudar na realização do Festival Imaginário, um festival de artes ao ar livre para todas as idades, do qual faço parte da organização, e está a ser muito empolgante, será a primeira edição este ano e, se estiverem por lá perto nos dias 31 de maio, 1 e 2 de junho, estão convidados a aparecer com toda a família. Agora é todos seguirem o exemplo.

YN: O teatro deveria fazer parte dos currículos escolares?
ALM: O teatro devia estar presente em todo lado. Desde pequeninos, nas escolas, como também em algumas faculdades como apoio. Felizmente há cada vez mais AEC nas escolas primárias com aulas de teatro e expressão dramática. Acredito que cada vez mais nos alinhamos para ter o teatro presente no currículo escolar.

YN: Existem oportunidades para os jovens enveredarem pelo teatro?
ALM: Existem imensas oportunidades. Em todo o lado se vê grupos amadores, ou profissionais com aulas de teatro e formações. E se os jovens quiserem enverdar pelo ensino, há muitas escolas com formação secundária e superior onde podem estudar teatro.

YN: Existe mercado em Portugal para integrar os atores e atrizes que terminam a sua formação e querem enveredar por esta área?
ALM: Não existe mercado para todos os atores que terminam a sua formação. Isto acontece em quase todas as áreas, costuma haver mais procura do que oferta. Mas como tudo acaba por se equilibrar, há atores que terminam a sua formação e apercebem-se que afinal querem outra coisa, ou não gostam assim tanto ao ponto de se esforçarem muito, então aqui entra a seleção natural das coisas, quem fica, acaba por conseguir arranjar trabalho. Muitas vezes escasseia, mas há sempre coisas para fazer. Os atores nunca estão desempregados, estão sempre, entre trabalhos.

YN: Como é que avalia o teatro que se faz em Portugal? Qual o seu futuro?
ALM: É um teatro de referência. Somos muito bons intérpretes. O que falta é mais financiamento, mais formação, mais espaços onde apresentar, porque muitos de nós não conseguem ter casa para atuar, e mais reconhecimento.

YN: Em que projetos a Ana Lúcia Magalhães está a trabalhar?
ALM: Como tinha dito ainda vou trabalhando na primeira companhia onde entrei em Lisboa, a bYfurcação, estou a fazer uma temporada da Bela Adormecida, um espetáculo infantil que está em cena aos fins-de-semana no MUHNAC, em Lisboa. Com essa companhia também estou a produzir o Festival Imaginário. Faço alguns espectáculos em escolas durante a semana, em outros projetos. Já estive em quase todas as escolas primárias de Lousada com um espetáculo sobre a alimentação saudável, num projeto apoiado pela Câmara Municipal de Lousada. Tenho um grupo de teatro de improviso, e costumamos apresentar espetáculos em algumas salas por Lisboa. Dentro do improviso também sou cantora no espetáculo Improfado dos Improváveis, que também está disponível para viajar pelo país. Tenho um duo com o meu namorado, chama-se Terraza e compomos música original em português, já demos dezenas de concertos por todo o lado. Faço parte do BOCAge e d’O Reviralho com a Rita Ribeiro espetáculos disponíveis para venda nacional, da produtora Magia Abrangente. Faço ações de formação com empresas por todo o país, exercícios de quebra-gelo, criação de música, entre outras ações. Estes são só os que me lembro por agora.

YN: É expectável a Ana Lúcia Magalhães regresse a Lousada nos próximos tempos?
ALM: Nos próximos tempos é expetável que volte para visitar a minha família ou para atuar. Para viver, para já não está nos meus planos. Veremos o que o futuro me reserva.

YN: Sente que é acarinhada e que o seu trabalho é acompanhado em Lousada?
ALM: Sou muito acarinhada pelas pessoas de Lousada. Tenho recebido mensagens muito queridas, de apoio, muita gente segue o meu trabalho e acredita em mim. Ainda só tenho 10 anos de carreira, sinto que já fiz muito, mas que muito mais tenho para fazer, e espero que as pessoas de cá sintam orgulho do meu trabalho. Ter acontecido vir a Lousada, ao Folia, com um espetáculo como o BOCAge e ao lado das minhas queridas Rita e Alexandra, foi um presente delicioso que a vida me deu. Só posso agradecer.

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