Que queremos fazer com a terra que herdamos

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A propósito do 10 de Junho, dia de Portugal, de Camões e das comunidades portuguesas, são férteis os discursos em forma de balanço. Fazem-se contas ao passado, mira-se o presente e apontam-se ideias e caminhos que formarão o futuro.
Nas palavras de João Miguel Tavares, presidente da comissão organizadora das comemorações do dia de Portugal, foi latente a consciência de que emerge, entre nós, uma geração de adultos desencantados. Desconfio que faço parte, por questões estatísticas e não por estados de alma, dessa dita geração.
É perigoso esse desencanto. A desilusão pesa mais no cidadão do que a opressão, porque não condiz com o impedimento do sonho, mas sim com o seu esvaziamento, por isso, no lugar da revolta provoca apatia.
O país terá feito um caminho, terá queimado etapas de forma apressada, em direção à democracia, em direção à Europa e em direção a um estado social que trouxesse dignidade ao português comum. Esse português comum, mais do que sonhos, terá criado expectativas, um nível de vida mais condigno, universidades, saúde, melhores equipamentos e infraestruturas, mobilidade social. Boa parte disso terá sido conseguido. O tal desencanto é consequência de uma consciência falaciosa de constância democrática, de indiferença de rostos, de cores e de gestos e, por fim, uma sensação de desmoronamento moral do regime. Uma mensagem de fim de linha, irredutível e inalterável.
Seria útil, no meio de tudo isto, olharmos para a nossa terra, para os nossos lugares e para a nossa gente. Paredes é o português comum. Fez uma notável transformação industrial no século XX, terá garantido o futuro em forma de emprego e com isso terá assegurado o pão. No entanto a pergunta fundamental será: teremos progredido o suficiente do ponto de vista humano? Teremos aproveitado todas as oportunidades?
Teremos educado cabalmente as nossas gerações passadas? Quando assumimos que temos um problema de literacia? Em 2011, apenas 7% dos paredenses tinha frequentado a universidade, na Área Metropolitana do Porto (AMP) essa estatística situa-se nos 14%. Mesmo no ensino secundário, na mesma data, apenas 11% dos nossos habitantes tinham frequentado o ensino secundário, na AMP esses números chegam aos 15,6 %.
A cultura e a consciência coletiva também são fatores de progresso. Em 2017, não havia um único museu em Paredes, nem mesmo do mobiliário, também não havia uma única sala de cinema. A despesa da Câmara Municipal em questões culturais e desportivas, em 2011, era cerca da metade da média dos concelhos da AMP, salvaguarde-se que isto não pode ser interpretado sem olhar ao enorme peso que tem o desporto na política local.
No momento em que escrevo estas linha, à mesa de um café em Rebordosa, tendo à minha esquerda, um conjunto de quatro marceneiros aposentados, consigo facilmente descobrir as suas antigas ocupações, porque nenhum deles tem intactos os dez dedos das mãos. Está é uma funesta característica que nos distingue. De tão abundante quase nos parece habitual. Mais uma vez a pergunta que se coloca é: estarão as nossas fábricas e oficinas, em 2019, a garantir as condições de segurança aos seus trabalhadores, muitos deles jovens? Estarão garantidos esses direitos básicos aos trabalhadores? É uma dúvida legítima.
Na dimensão ambiental, estaremos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para preservarmos a pureza dos nossos cursos de água? Lembro particularmente o Rio Ferreira na sua passagem por Lordelo.
Muito mais questões poderiam ser abordadas, como a mobilidade urbana, o acesso concreto a cuidados de saúde primários e até a necessidade de equipamentos que forneçam, aos nossos estudantes, espaços de estudo que possam ser cabalmente aproveitados e que, com igualdade, estejam distribuídos pelo concelho.
Se o desencanto é tanto como apregoam, alegremo-nos então, porque ainda há muito porque lutar!

Pedro Sousa
Militante da JS Paredes

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